O Holocausto na França: o Dia em que a Adesão Virou Espetáculo

Na França, o Dia de Memória do Holocausto é 16 de julho. Ele marca o infame episódio em 1942 que entrou para a História como “Rusga do Velódromo de Inverno de Paris”—“La Rafle du Velodróme d’Hiver”, em francês. Para muitos estudiosos, o extermínio dos judeus da França efetivamente começou nesse dia.

La Rafle du Velodróme d’Hiver”—ou simplesmente “Rafle du Vel’ d’Hiv”—foi uma operação conjunto de tropas alemãs de ocupação com as autoridades colaboracionistas francesas. Seu objetivo era sequestrar a população judaica de Paris e deportá-la para campos de concentração. Entre às quatro horas da manhã de 16 de julho e a noite do dia seguinte, 13.152 judeus foram detidos—dos quais 4.051 eram crianças com menos de dezesseis anos.

A França na ocasião estava dividida entre duas jurisdições. O norte do país—incluindo toda a sua costa atlântica, estava sob ocupação direta das Forças Armadas do III Reich. A metade ao sul era chamada de zone libre (“zona livre”) cuja administração era de responsabilidade do Presidente Henri-Philippe Pétain, e de um ministério composto por franceses dispostos a colaborar com os nazistas.

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O Marechal Henri-Philippe Pétain era um herói francês da Primeira Guerra Mundial. Em 1940, com os alemães derrotando as tropas francesas, ele se apresentou como o único líder nacional capaz de fazer um acordo com os invasores. Dizia que era necessário “para derrotar o judaísmo-maçônico-bolchevique”

Teoricamente, o governo de Pétain era a autoridade nominal de todo o Império Francês. A presença de tropas alemãs na área setentrional estava prevista no armistício de 1940 assinado entre Adolf Hitler e o Marechal Pétain–recém-empossado na presidência da França com poderes extraordinários. O acordo permitia que a Wehrmacht alemã assumisse o controle do norte da França até derrotar a Grã-Bretanha. Como os britânicos não foram derrotados, as tropas foram ficando.

França Vichy

A França assinou um armistício com as potências do Eixo em 1940. Em tese, a área ao sul era soberana, e seu governo tinha sede em Vichy, uma cidade com um excelente sistema telefônico e hoteleiro para que Pétain administrasse o país.

Mas mesmo na zone libre o governo de Pétain (sediado na cidade de Vichy) estava sob a tutela do Eixo. Entre as suas obrigações perante o III Reich estava a absoluta cooperação com o extermínio da população judaica. Para não desfazer a aparência de soberania do governo em Vichy, a Alemanha nazista delegava a tarefa de detenção da população judaica às próprias autoridades policiais francesas, como era o caso do préfet René Bousquet. No dia 2 de julho de 1942, Bousquet compareceu a uma reunião em que o governo de Vichy, encabeçado pelo primeiro-ministro Pierre Laval, anunciava o compromisso de encarcerar toda a população judaica de Paris. Bousquet mostrou-se preocupado com o emprego de policiais franceses para a realização de uma tarefa nazista, pois isso poderia comprometer a imagem de governo soberano que o regime em Vichy conservava. Chegou-se a um entendimento: somente os judeus sem cidadania francesa seriam detidos, passando a impressão de que a decisão de Laval era uma iniciativa francesa contra uma população estrangeira.

Sob muitos aspectos, havia bastante iniciativa francesa na operação. Os nazistas não haviam exigido a detenção de crianças, mas Laval decidiu que seria necessário mesmo assim. (Anos mais tarde ele alegaria que era para não separar os filhos de seus pais—mais foi justamente o que aconteceu). Mas o mais significativo foi a adesão voluntária de milhares de antissemitas franceses se oferecendo para colaborar com os policiais de Laval. O mais emblemático deles foi Jacques Doriot, líder da agremiação ultranacionalista Parti Populaire Français, ou PPF. Vestindo uniformes azuis e braçadeiras no melhor estilo nazi-fascista—fazendo inclusive a saudação romana de braço erguido, cerca de 3400 jovens integrantes do PPF atenderam à convocação de Doriot para colaborar no arrastão de judeus. Reunidos no velódromo de ciclismo de Paris, o Velódrome d’Hiver, os seguidores de Doriot se comprometeram com a chamada Opération Vent Printempier (“Operação Vento da Primavera”) de Laval. Eles assumiram controle das instalações do velódromo, e lá trancafiaram a grande maioria dos judeus sequestrados naqueles dois dias.


As condições de detenção no Velódrome d’Hiver (ou Vel’ d’Hiv) eram asquerosas. Para aqueles 8000 judeus só havia uma única torneira—e nenhum lavatório acessível. As pessoas se espremiam de forma assustadora praticamente sem água ou comida. Os demais judeus não-franceses de Paris foram enjaulados nos campos de concentração de Pithiviers, Beaune-La-Rolande e, principalmente, Drancy. Mas o destino de todos seria o mesmo: Auschwitz.

Dentre as 13.152 pessoas detidas naqueles dias (dentre as quais havia um bebê de dezoito meses), menos de cem sobreviveram ao Holocausto. E o número poderia ter sido ainda maior: os nazistas estimavam que a Opération Venti Printempier atingiria a marca de 22 mil judeus detidos. Graças aos esforços da Resistência francesa, milhares de judeus de Paris conseguiram escapar da “Rafle du Vel’ d’Hiv”. Mas o III Reich não iria parar por aí. Até o final da Segunda Guerra Mundial 75 mil judeus habitantes da França (de um total de 340 mil) seriam deportados para campos de extermínio. Destes, menos de 2500 sobreviveram.

La Rafle du Vel’ d’Hiv não foi o primeiro arrastão contra judeus na França. Houve outro, bem menor, ainda em maio de 1941. A importância da “Rafle” está no fato de ter sido uma operação para levar os judeus diretamente aos campos de extermínio, e pela visibilidade chocante de enfurnar milhares de judeus no que era um dos cartões postais de Paris. O uso de um velódromo de ciclismo como centro de detenção deu um significado todo peculiar ao processo, inclusive porque o seu telhado de vidro fez do local uma verdadeira fornalha a partir do momento em que suas janelas foram todas trancadas. Poucos episódios do Holocausto na França foram tão ostensivos; a conspicuidade do Vel’ d’Hiv fez com que o genocídio sofrido pelos judeus se tornasse uma marca indelével na memória daquela geração. Foi o momento em que os colaboracionistas franceses se colocaram debaixo dos holofotes para todo o mundo ver a extensão de sua cumplicidade com o nazismo.

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As janelas do Velódromo de Inverno foram trancadas para evitar fugas. Com o telhado de vidro pintado de azul para camuflar o edifício, os prisioneiros sofriam um calor infernal.

Passados 74 anos, a Rusga do Velódromo de Inverno de Paris persiste como uma lembrança do que as pessoas estão dispostas a fazer ao aderir à causa do extermínio.

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Quem Fiscalizou o Sarney? A Jogada Política do Plano Cruzado

Tancredo Neves nasceu no dia 04 de março de 1910; nenhum anjo anunciou o seu nascimento, nenhum rei-mago veio trazer presentes e certamente não houve Estrela de Belém para guiar algum que viesse. Mas quando ele morreu no dia 21 de abril de 1985, sem ter tomado posse na Presidência da República, a mídia–em sua inesgotável habilidade de mistificar a política brasileira–transformou sua morte em apoteose messiânica. Já havia transformado a sua doença em calvário bíblico, aliás.

O fato é que essa tragédia salvou Tancredo do inevitável desgaste de governar um País depenado e inválido, tendo prometido tudo e mais um pouco. Só não prometeu o que realmente sabia fazer: unir os políticos em blindagem contra os deveres impostos pelas crises. Por outro lado–pelo NOSSO lado–a tragicomédia de sua canonização uniu o povo em blindagem contra as reflexões exigidas pela História.

Tancredo operava no escuro para embromar em público. Não foi transparente sequer a respeito de sua doença e o País ficou estupefato com sua internação–às vésperas da posse na Presidência, ó ironia do destino. Parece que foi só então o Brasil se deu conta que, num primeiro minuto de emergência, o cargo ficaria com o inefável vice José Sarney. E a emergência que foi chegou–antes do primeiro minuto de governo–foi fatídica. Assim, com sua morte, Sarney assumiu a Presidência em (falta de) caráter definitivo. Bem como a tarefa de tirar o Brasil do buraco–sendo que sua especialidade sempre foi o inverso. Sarney, um cacique político nascido e forjado para direcionar o País sem precisar ser amado (ou mesmo muito conhecido), era para a Direita uma garantia perfeita contra seu grande medo: um desperdício da vocação de Tancredo. Da missão de Tancredo. Da urgência por um Tancredo. Em suma, da vocação, da missão, da urgência de proteger os políticos da Política. Sarney era um chacal maranhense, que não tinha (e jamais mereceria) a aura de democrata que a raposa mineira cultivara.

Sarney e Tancredo

José Sarney foi mais do que a garantia de vitória e da posse de Tancredo Neves: era a garantia de que as elites não seriam traídas

Saído dos bastidores, enfiado no meio do palco, debaixo dos holofotes, apresentando-se perante um povo com mais opções que os miseráveis de seu estado, o maranhense se viu em maus lençóis. O deserto mantinha a aridez, mas a miragem perdia nitidez: após um ano de mandato insatisfatório, adentrando um temível ano eleitoral adentro, o neo-coronel na Presidência anunciou o Plano Cruzado. O plano econômico do Ministro da Fazenda Dilson Funaro prometia curar o país da espiral inflacionária, a moléstia que a cada ano se agravava. O Brasil trocou uma miragem por outra.

José Sarney desmontou, num único golpe, a galopante inflação do Brasil e sua própria reputação (sempre merecida) de boitatá. O Plano congelou os preços. Preços congelados aumentaram o poder de compra. O poder de compra aumentadésimo precipitou a erupção do consumo. E um povo que consome muito encontra o sentido da vida. Congelamento, aumento, erupção e o sentido da vida fizeram o salto quântico na popularidade governamental. O Plano congelou os salários, por certo, mas derrubando a inflação multiplicou seus valores reais. Sarney, paralelamente, multiplicou seu valor irreal. E virou herói popular.

Mas a colisão do encanto de ser herói com a responsabilidade de dirigir a Economia era questão de tempo. Nenhum dos economistas por trás o Plano Cruzado  esperava um congelamento prolongado; eles sabiam que a medida era artificial e que os donos dos meios de produção acusariam uma queda nos lucros. Afinal, ustos de produção são raramente congelados na base do grito. O índice geral de preços do governo acabaria sendo ignorado pelos grandes vendedores, mais cedo ou mais tarde (leia-se mais cedo). Viria descongelamento na marra, e aí o que o Governo faria?

Um congelamento paliativo até fazia sentido–bastante–porque a economia brasileira quase nunca conseguia crescer sem que a inflação pegasse uma carona. Conter a inflação com cortes de gastos (sociais, de preferência) sempre fora uma possibilidade–sobretudo para ditadores como Castello Branco. Mas um País governado por Tancredo ou Sarney essa possibilidade era desagradável, por três motivos (nenhum dos quais era por preocupação social). O primeiro: perder eleição para eles sempre foi pior até que perder a mãe. A velha, já cumprira a missão trazendo-os ao mundo–mas mantê-los era o papel da vitória eleitoral. E cortes de gastos sempre as tornam mais improváveis.

O segundo: Tancredo e Sarney só foram eleitos por causa da “Aliança Democrática”, o pacto anódino entre o PMDB daquele primeiro e o PFL deste último. E só com ela conseguiriam governar. O detalhe era que PFL não passava de uma dissidência oportunista do PDS, que a ditadura criara–com o sugestivo nome de “Arena”–para defendê-la. Já o PMDB era, em certa medida, herdeiro do MDB, que a ditadura criara para lhe fazer uma oposição simbólica, inofensiva mesmo. O que os aproximava era a doentia obsessão por vitórias eleitorais; o PFL era capaz de tudo para vencer um pleito; o PMDB era capaz de quase tudo. Eram capazes, portante, de se aliar, mas eram igualmente capazes de romper. E se o governo mantivesse em 1986 os índices de desemprego de 1985, a derrota eleitoral em novembro uma forte possibilidade. E um clima de “cada-um-por-si” era ainda mais provável, e nesse caso a Aliança Democrática estaria efetivamente enterrada.

Aliança Democrática

Caciques da “Aliança Demcrática”, da esquerda para a direita: Tancredo Neves, que foi do MDB, lava as mãos; José Sarney, que foi da Arena, fica esperando no cantinho; Franco Montoro, que foi do MDB, com cara de quem não gosta de ficar na sombra de Ulysses; Ulysses Guimarães, que foi do MDB, encara tudo com muita naturalidade; Marco Maciel, que foi da Arena, faz algum discurso hipócrita; e Aureliano Chaves, que foi da Arena, tem que ficar parado e quieto pra não fazer besteira. O que os une? A vontade de vencer o povo.

E o terceiro motivo: nem Tancredo e nem Sarney, nem PMDB e nem PFL ignoravam que entre os candidatos das inevitáveis eleições presidenciais estaria o líder do PDT Leonel Brizola. Tampouco ignoravam suas chances imensas. Fosse em 1988, 1989 ou em 1990–a iminente Constituinte fixaria a data–a eleição direta para Presidente atestaria a imensa popularidade daquele socialista gaúcho que vinha governando o estado do Rio de Janeiro com êxito impressionante. As pesquisas de intenção de voto já o colocavam na liderança–liderança isolada, aliás. Sem exceção. Trocando os miúdos: um governo federal impopular não conseguiria detê-lo;  e, infelizmente aquele eleitorado pentelho estava mais exigente que nunca. Era frescura de eleitor que não acabava mais; eles chiavam contra o desemprego, faziam bico contra a inflação, ficavam de mimimi contra as injustiças sociais e o coitado do governo era forçado a trabalhar de verdade. Para silenciar o chororô daquele povo malcriado ia ser necessário mais do que mamadeira e Cremogema.

Nesse aspecto, o Plano Cruzado caiu feito uma luva–e que Sarney vestiu com mão de ferro. Mas não foi o único: Ulysses Guimarães, presidente a um só tempo do PMDB e da Câmara dos Deputados, estava tão empolgado com o sucesso nacional do Plano quanto o chefe de Governo. De modo que não deu bola ao alerta que a equipe econômica fazia, e menos ainda a suas recomendações de congelamento. Medidas amargas, dizia Ulysses, só depois das eleições. Os analistas do PMDB era inequívocos: afrouxar o Plano daria votos para a Esquerda e garra para os sindicatos. Qualquer aumento da inflação seria um risco, e se Brizola fizesse seu sucessor no governo fluminense ficaria um passo do Planalto. Era inaceitável, a Direita tinha pavor que o sucesso pedetista no Rio se prolongasse. Ulysses e Sarney estavam decididos: nenhuma alteração antes do fechamento das urnas. Essa convicção não os permitia reconhecer que quanto mais as medidas demorassem pra vir, mais amargas teriam de ser. Temiam apenas o aumento unilateral dos preços, mas até pra isso tinham uma solução, épica: mobilização popular contra o ágio.

Era a coreografia das lutas de super-heróis. De um lado, os reis da produção ignoraram o índice geral dos preços e passaram a cobrar o que lhes convinha. Do outro, o Presidente conclamou os consumidores para reagirem. O Brasil atendeu a seu chamado e “fiscais do Sarney” pipocaram em todos os cantos. Uma massa nacional fora galvanizada para defender o Plano, vigiar os preços, e denunciar os aumentos para a Superintendência Nacional de Abastecimento.

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Os “bottons” que marcaram a Geração de ’86. Sarney convocou o povo para fiscalizar “o dragão da inflação”. Mas quem fiscalizou o Sarney?

A cruzada pelo Cruzado era movida a euforia, mas seu desfecho só poderia ser melancólico. Sua premissa, de que Sarney era um aliado do povo na luta contra os aproveitadores, não poderia ser mais ilusória. Mas aquela geração não se iludiu por acaso; o melhor ator da política estava desempenhando o mais envolvente papel das mitologias. E o roteiro era irresistível: cansados de apanhar dos fiscais do Sarney, os magnatas da produção resolveram esvaziar as prateleiras dos supermercados. Fingiam que, se não pudessem vender pelo preço ideal, preferiam não vender. Era a deixa pro Governo ir para o alto e avante; no caso, para arrastar as mercadorias para os mercados. A operação cinematográfica incluía até mesmo o confisco policial de gado. A mídia pintou os eventos em Technicolor, e Funaro, elevado à divindade, foi às propagandas eleitorais do PMDB distribuir seu esplendor. Ulysses transformara um ignoto empresário da indústria de brinquedos em Ministro; o Ministro transformou em panteão olímpico.

Plano Cruzado apoio popular

O Plano Cruzado deu a José Sarney uma popularidade inacreditável: o Brasil vivia um sonho

Do outro lado, Brizola estava impedido de ir à TV pedir votos para seus candidatos. A Aliança Democrática aprovara uma lei casuística proibindo governadores de aparecer no horário eleitoral. Sem a apaixonante oratória do gaúcho indômito para fervilhar sua propaganda televisiva, o PDT do Rio teve de se contentar com a tépida peroração do professor Darcy Ribeiro. E o que lhe sobrava em inteligência e discernimento faltava-lhe  em carisma. Se isso fosse pouco, a esquerda fluminense tinha quatro candidatos disputando votos: além de Darcy, havia Fernando Gabeira pelo PT, Aarão Steinbruch pelo PaSART, e Sinval Palmeira pelo PSB. Os grupos comunistas, PCB, PCdoB e MR-8 fizeram campanha para o direitista Moreira Franco com a maior naturalidade. Sua coligação reunia uma dúzia de partidos, empunhando o Plano Cruzado e surfando uma doentia ofensiva midiática contra Brizola.

O eleitorado do Rio, como todo eleitorado do País, foi às urnas no dia 15 de novembro de 1986 sob efeito de uma feitiçaria econômica. Moreira Franco se elegeu governador fluminense com uma quantidade ínfima de votos à frente da soma das esquerdas; Darcy foi o socialista mais votado no País. Mas não teve jeito, nem pra ele e muito menos para os demais. O PMDB elegeu 22 governadores, de um total de 23. O vigésimo-terceiro também era da Aliança Democrática: Antônio Carlos Valadares, do PFL sergipano. Ulysses conquistou o décimo mandato deputado federal com inéditos 590.873 votos, atrás apenas de Lula da Silva, do PT. O PMDB elegeu uma confortável maioria dos senadores e deputados, e, portanto, da Assembléia Nacional Constituinte. O PFL ficou com um distante segundo lugar. O Plano Cruzado arrastou as fichas do cassino eleitoral.

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Durante a Ditadura de 1964, José Sarney e Ulysses Guimarães estiveram em lados opostos. Em 1985 se uniram na Aliança Democrática. Em 1986 organizaram uma estratégia eleitoral em cima do Plano Cruzado. De Ulysses, Sarney recebeu sustentação. De Sarney, Ulysses recebeu um Plano que lhe deu 590 mil votos e elegeu 22 governadores peemedebistas.

Mas o governo não esperou sequer a divulgação dos resultados para abrir a cortina. No minuto em que as urnas fecharam, o ministro Funaro anunciou a liberação dos preços e em questão de dias eles escaparam completamente não só de seu controle–da qual abdicara–mas de suas piores previsões. O País sofreria, com juros (quase literalmente), a vingança dos preços. Tudo que não foi aumentado ao longo do ano aumentou, quase cumulativamente, a partir de 16/11. Era o começo de um novo ciclo inflacionário voraz e pantagruélico. Dessa vez, porém, o brasileiro enfrentaria a (hiper)inflação sem fé em políticos e economistas, sem fé no futuro ou mesmo em si. A antecipação do pior sói incrementar a piora.

O Plano Cruzado fez mais que inchar o poder do PMDB. Inchou também aquele sentimento determinista de que o País não tem como ser feliz. A realidade do Cruzado desabou sobre o espírito nacional como a morte de Tancredo, tão inesperado quanto desolador. No entanto, a oportunidade Cruzado perdeu era real e promissora; o opróbrio que o Cruzado sofreu foi intencional e diabólico. Por contraste, o horizonte que Tancredo patenteou era folclórico e duvidoso; o seu sofrimento foi trágico e indesejado. Em 1985, uma fatalidade quase inevitável foi fantasiada de martírio nacional, e uma mitologia oportunista obscureceu os fatos a respeito de um estrategista solerte. Em 1986, uma voracidade quase insaciável fantasiou a realidade nacional, e uma demagogia oportunista obscureceu os fatos a respeito de uma economia incerta. Em 1985 a nossa fábula de País condenado ao fracasso foi alimentada pela falsificação de um Passado. Em 1986, pela falsificação do Presente. Ironicamente, a lição que fica da “Aliança Democrática” Tancredo-Sarney é essa: quanto mais o brasileiro for ludibriado, mais fácil será ludibriá-lo. Ou, contrariando o verso de música do The Who: “We shall be fooled again.” Nós haveremos de ser enganados de ser enganados de novo, e por um motivo: nós sempre nos enganamos a respeito da natureza de nossos enganos.

Para Dar ao Sol seu Lugar ao Sol: Galileu Colide com o Obscurantismo

Em 26 de fevereiro de 1616 a Igreja Católica Apostólica Romana julgou o cientista Galileu Galilei pela primeira vez. Mas ele não foi o único condenado. A própria Teoria Heliocêntrica do Universo foi declarada, judicialmente, uma heresia; leia-se, uma violação dos dogmas da Igreja. Em regimes teocráticas as heresias têm status de crime, para todos os efeitos. O Tribunal do Santo Ofício, presidido pelo Cardeal São Roberto Belarmino, proibiu Galileu de ensinar a Teoria Heliocêntrica, que o astrônomo polonês Nicolau Copérnico havia introduzido à ciência ocidental moderna. As suas obras, bem como as de Johannes Kepler e de outros heliocentristas, foram incluídas no Index Librorum Prohibitorum, o rol de livros proibidos que materializava a intenção da Igreja de monopolizar o conhecimento oficial. Galileu passaria o resto de sua vida tentando publicar seus papéis científicos numa linguagem ambígua o bastante para escapar nas brechas da sentença de São Belarmino. Ela exigia que Galileu “se abst(ivesse) completamente de ensinar ou defender essa doutrina e opinião ou discuti-la”, no caso, “que o Sol se mantém imóvel ao centro do Mundo que que a Terra se move.” A brecha não estava no escopo: ele não poderia “acreditar, ensinar ou defendê-la em qualquer forma, nem oralmente, nem por escrito.” Em outras palavras, para Galileu chegar a uma linguagem ambígua o bastante para a publicar suas conclusões ele precisaria da elasticidade de um ginasta e da malemolência de um prestidigitador.

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Cardeal São Roberto Belarmino (1542-1621), sacerdote jesuíta que condenou o heliocentrismo como heresia em 26 de fevereiro de 1616. Pintor anônimo, data incerta.

Polímatas como Galileu Galilei são versáteis por excelência, mas o sucesso de sua malemolência dependia menos da sua genialidade e mais da boa vontade do Sumo Pontífice. Durante algum tempo, muito da primeira assegurou um pouco da segunda, pois Galileu obteve de São Roberto Belarmino uma certa margem de manobra que manteve as suas obras seguintes fora do Index Librorum Prohibitorum. Mas limitar-se a ela manteria-o igualmente fora do compêndio de maiores gênios do Ocidente. Felizmente, Galileu não o fez: em 1632 publicou sua magnum opus Diálogo Sobre os Dois Principais Sistemas de Mundo. E a boa vontade do Sumo Pontífice se esgotou.

Não que a boa vontade fosse muita; mas em 1632 o Pontífice era Urbano VIII–não o Paulo V que encomendara a sentença inquisitória de Belarmino, nem seu sucessor Gregório XV, cujo pontificado de dois anos foi ainda mais obscurantista que o seu. Galileu chegou a cumprimentar Urbano por ocasião de sua posse frente à Santa Sé; parecia nutrir esperanças de ser suficientemente ginasta e prestidigitador para levar seus estudos às últimas consequências do método científico. A Igreja os levou às últimas consequências da misericórdia. Em 22 de junho de 1633, após meses de intimidantes interrogatórios–e ameaças de tortura–ele foi condenado à morte caso não abjurasse, renunciasse e amaldiçoasse suas teses. Galileu se retratou, e a Igreja, misericordiosa, comutou a sua pena para prisão perpétua. Em todo caso a todos os seu trabalhos foram colocados no Index; não só os que realizara, mas quaisquer que viesse realizar. O Index preventivo asseverava de que daquele herege não sairia boa coisa, jamais.

Galileu Galilei desfrutou da generosidade papal ao cumprir a prisão perpétua em caráter domiciliar; coube a ele destino melhor que hereges como Giordano Bruno, que dezesseis anos antes fora queimado na fogueira por seu heliocentrismo. Entre 1616 e 1632 Galileo empenhou à ciência a sobrevida que faltou a Bruno. Bruno teve oportunidades de abjurar, renunciar, e amaldiçoar suas teses, mas não o fez. Coube a esses homens papéis distintos na História: Bruno, um filósofo, morreu para que a Teoria Heliocêntrica tivesse uma vitória num gesto forte para o mundo inteiro ver. Foi uma vitória de consolação para a tragédia cultural contida em sua inconsolável tragédia pessoal. A coragem de Bruno o fez inspiração para todos os livre pensadores como Galileu que, ousando remar contra a maré, garantiram à posteridade a centelha de luz em torno da qual orbitam os mundos da pesquisa autônoma. Ou nas palavras de Isaac Newton, os ombros de gigantes em que subimos para enxergar mais longe. Giordano Bruno era um filósofo; Galileu Galilei, filósofo e cientista. Em 1600 o primeiro preferiu a morte que viver sem filosofar em voz alta. Em 1616 o segundo preteriu a morte para pesquisar em voz baixa. A sentença que desabou sobre a Teoria Heliocêntrica há quatrocentos anos forçou-o a testá-la nos subterrâneos da ciência; foi uma opção mais prosaica que a de Bruno, mas o que lhe custou em poesia valeu ao mundo em conhecimento. Ele postergou por dezesseis anos seu confronto final com a Igreja, eles legaram ao mundo uma obra astronômica sem igual, a qual a Igreja legou sua censura.

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Galileu Enfrenta a Inquisição Romana, quadro de Cristiano Banti, de 1857. Observem a postura desafiadora de Galileu Galilei, que camufla a provável realidade de um réu valente no espírito mas alquebrado pela tortura psicológica.

As obras de Galileu Galilei e Nicolau Copérnico só saíram do Index em 1835. Isso não significou uma aceitação clerical do heliocentrismo, menos ainda retratação pelas injustiças impostas a Galileu. Elas só viriam, em caráter oficial, em 1992. A Igreja Católica conhece apenas 24 anos, dos últimos seiscentos, do valor de Galileu. E não porque–conforme sugeriu um humorista–sofria de um acesso de preciosismo no empenho de conferir os resultados de seus estudos com uma calma ímpar. Foram seiscentos anos em que a Igreja perdeu tanto poder que precisou tomar medidas drásticas para prolongar sua relevância. Inaugurou uma doutrina social em 1891, sofisticou-a em 1931, e entre 1958 e 1965 atravessou um salto quântico em que fez de tudo, desde “perdoar” os judeus, instituir liturgias no vernáculo, delegar funções aos leigos, e permitir comunidades eclesiais de base. Hoje temos Pastorais da Terra, da Juventude, dos Negros, temos até padres marxistas, não porque suas ciências evoluíram, mas porque seu poder secular involuiu. Até hoje a Santa Sé palpita a respeito de conclusões científicas que desagradam seus dogmas e desafiam o obscurantismo de suas doutrinas. O mundo não pode esperar 376 anos até o Papa aceitar as células-tronco. A agenda teocrática tem que ser combatida inclusive pela dignidade das religiões. A separação de Igreja e Estado e a autonomia da pesquisa científica são a única linha de defesa da fé espiritual contra a sua própria impertinência.

Não se trata, portanto, de luta contra a religião, mas contra a mistificação. Ela se expressa inclusive no mito em que Galileu, ao se retratar de suas conclusões de que a Terra se move ao redor do Sol, teria resmungado, ao descer da cadeira dos réus: “Eppur si muove!” Traduzindo: “no entanto ela se move!”–quase uma pirraça de um filho travesso forçado a se desculpar ao pai, ainda que da boca pra fora. Essa fabricação pedestre serve como tentativa de dar a Galileu a poesia que Bruno fez por merecer; como diz a música d’ O Rappa: “A vitória de um homem às vezes se esconde num gesto forte que só ele pode ver.” Seria comovente, se não fosse óbvio que uma vitória de Galileu escondida num gesto forte que só ele poderia ter visto–ouvido, no caso–não poderia ter sido registrada. Portanto, se alguém tivesse ouvido “Eppur si muove!”, seria testemunha do descumprimento do réu dos termos da comutação. E Galileu iria para a fogueira.

É importante frisar que o pensamento científico sempre progride na proporção da autonomia gozada; cerceá-la não é prerrogativa da religião, mas de qualquer estreitamento do pensamento, como o contido em “Eppur si muove!” A era mais frutífera do pensamento humano talvez tenha sido à da Época de Ouro do Islã, expressão sugestiva que compreende boa parte do Califado Abássida (e parte do Califado Omíada), em que polímatas como Galileu Galilei abundavam nos pólos acadêmicos onde a discussão, reflexão e pesquisa eram livres e integradas. Os estudiosos eram incondicionalmente subvencionados pelo Estado; seus compromissos eram com seus próprios discernimentos. Da mesma forma, outro período que produziu numerosos polímatas, esses mestres completos em artes e ciências diversas, foi a Grécia Clássica, em que os pensadores eram sustentados pela contrapartida de pensar–livremente. Estadistas como Sólon tiveram o mesmo desprendimento que os califas abássidas, assim como no Renascentismo a generosidade dos mecenas permitiu Leonardos Da Vincis e Filippos Brunelleschis–a ponto da expressão “homem renascentista” ter se tornado sinônimo de polímata. O advento do Iluminismo reabriu algumas portas; o mundo ainda conheceria gênios da versatilidade de Johann Wolfgang von Goethe, mas se hoje, em boa parte do mundo, o Estado libertou-se da Igreja (conquanto relativamente), em parte alguma ele se libertou do Mercado, e o que vemos hoje são as nossas universidades bem mais desintegradas, bem menos interdisciplinares–galacticamente distantes da Universidade de Bagdá ou da Academia de Platão–e, sobretudo, criminosamente orientadas para o lucro, cada vez menos indulgentes para qualquer tipo de trabalho que não enriqueça direta e materialmente as firmas do poder.

O Dia em que Nikita Khrushchev Descortinou Josef Stalin

O dia: 25 de fevereiro de 1956.

O local: O Kremlin de Moscou, na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

A ocasião: A plenária de encerramento do Vigésimo Congresso do Partido Comunista da União Soviética.

O secretário-geral do PCUS Nikita Sergeyevich Khrushchev assume a palavra. Falou por quatros horas–ao fim das quais o movimento comunista jamais seria o mesmo.

Aquele era o primeiro congresso do partido desde a morte de Josef Stalin três anos antes. Era o décimo-quinto desde que a Revolução de Fevereiro de 1917 destruíra o tsarismo russo, e a décima-quarta desde que a Revolução de Outubro de 1917 colocara os bolcheviques de Lenin no poder. Entre 1917 e 1926 o congresso foi realizado anualmente; isso significa que entre a queda do Tsar Nicolau II e a morte de Vladimir Lenin a instância suprema decisória do partido se reuniu mais vezes que nas três décadas seguintes. A princípio, a grande singularidade do vigésimo parecia ser o relativamente breve lapso de quatro anos desde o décimo-novo, que por sua vez levara mais de treze anos para suceder o décimo-oitavo.

Entre um Congresso e outro o PC era dirigido pelo seu Comitê Central, sob o comando político de seu Politburo, sobre o qual o secretário-geral da agremiação exercia uma supremacia de facto. O aparelhamento do estado soviético pelo PCUS–o único partido legal–fazia do secretário-geral o efetivo governante do país. Desse modo, o georgiano Josef Stalin, primeiro detentor do cargo, fora virtual líder da União Soviética desde o falecimento de Lenin mesmo sem possuir cargo oficial no governo. Somente em 1940 ele assumira a posição decorativa de Primeiro-Ministro, na qual foi sucedido por Georgy Malenkov por ocasião de sua morte. Por contraste, seu sucessor como secretário-geral foi o herói de guerra Nikita Khrushchev. Nessa contradição um choque de prerrogativas decidiu o futuro do país e dos adeptos do comunismo ao redor do planeta. A autoridade formal de Malenkov foi conservada por Khrushchev enquanto lhe foi útil para limar a eminência parda da KGB–o soturno Lavrentiy Beria. Com a eliminação do grande       da NKVD, o aparato policial da URSS não seria ameaça para a supremacia burocrática de Khruschev. A partir de então foi uma questão de quebrar a bucha de canhão ao meio: o Politburo passou a sabotar todas as decisões do Premier Malenkov até, enfim, substituí-lo pelo subserviente Nikolay Bulganin. Faltava só desmontar os focos de resistência dos apaniguados do premier apeado, e no XX Congresso Khrushchev arquitetou a oportunidade perfeita.

Beria Bulganin Khrushchev Malenkov

Em sentido horário, começando na esquerda ao alto: Lavrentiy Beria (1899-1953); Nikolay Bulganin (1895-1975); Georgy Malenkov (1902-1988)

Nas “táticas de salame” na burocracia soviética, Lavrentiy Beria foi assassinado pouco após Stalin falecer; nessa conspiração Bulganin apoiou Malenkov e Khrushchev, e quando houve disputa entre os dois, apoiou o último; mesmo assim, finda a ameaça de Malenkov, Khrushchev apeou Bulganin

Qualquer objeto de culto à personalidade tem seu legado reivindicado por um ou mais pretenso sucessor após a morte, e com Stalin, um ícone sem par nesse aspecto, não foi diferente. Khrushchev não queria convulsionar o PCUS numa briga de apóstolos do grande líder pelo controle do país. Ao mesmo tempo, estava farto de sustentar curriolas burocráticas que viviam penduradas no poder desde que os Grandes Expurgos de 1934-1940 erradicaram os quadros orgânicos do partido por ignotos escorados exclusivamente pela vocação de bajular os poderosos. O encerramento do XX Congresso estava agendado para o dia 24 de fevereiro, mas os delegados foram convocados de antepenúltima hora para uma plenária final do dia seguinte, em que Khrushchev lançou sua bomba. Chamava-se “Sobre o Culto à Personalidade e suas Consquências” e consistiu de um breve resumo das atrocidades cometidas por Josef Stalin contra a URSS, o partido bolchevique e a ideologia leninista. Citou trechos da obra de Marx e Lenin denunciando o “culto ao indivíduo”. Leu o Testamento de Lenin em que o líder revolucionário mostrou seu desprezo pelo caráter de Stalin. Enumerou as violações de Stalin contra o princípio da “liderança coletiva”. Denunciou a transformação da luta ideológica contra o trotskyismo em pretexto para exterminar supostos rivais. Expôs os métodos diabólicos pelos quais 848 delegados aos XVI Congresso do partido foram mortos e outros 1.108 foram declarados “contrarrevolucionários”–entre os 1.966 presentes. Desmistificou o heroísmo atribuído a Stalin na Segunda Guerra Mundial. Esmiuçou as políticas de transferência populacional que resultaram na deportação de mais de seis milhões de pessoas de diversas nacionalidades, provocando a morte de quase 1.600.000. Descortinou a natureza da “Grande Fome” (Holodomor) que ceifou entre 3.000.000 e 6.000.000 ucranianos. Repudiou até mesmo a substituição do “Prêmio Lenin” pelo “Prêmio Stalin”. Em suma, acusou Stalin de tudo, menos de ser leninista.

Khrushchev e Stalin

À esquerda, Nikita Khrushchev (1894-1971). À direita, Josef Stalin (1878-1953). Foto de 1936.

Em 1937 Nikita Khrushchev (ou Kruchov) indicado comandante da Ucrânia por Josef (ou Iosip) Stalin, onde implementou os expurgos do patrão.

As acusações de Khruschev eram tão graves quanto embasadas e os presentes ficaram visivelmente consternados. Há muitos relatos de delegados e observadores que chegaram a passar mal durante o discurso e tiveram de ser socorridos. Nos dias e semanas seguintes alguns dos presentes sofreram ataques cardíacos; uns cometeram suicídio. Nada que se comparasse, contudo, com a hecatombe que desabaria sobre as cabeças de marxistas-leninistas ao redor do mundo. O pronunciamento acabou ganhando o epíteto “Discurso Secreto” pelo caráter fechado da plenária e pela proibição de registros estenográficos, mas o Comitê Central do PCUS logo tratou de distribuir cópias para discussão a todas as células do partido. Embora a publicação no russo original só fosse vir em 1989, no Governo Gorbachev, o discurso-não-tão-secreto chegou à opinião pública por veredas tortuosas porém certeiras. Ainda no começo de março a Reuters distribuiu a notícia do pronunciamento e resumiu o seu teor. O New York Times, o Le Monde e o Observer publicaram o discurso na íntegra nas primeiras semanas de junho. Os Partidos Comunistas por todo mundo reagiram com o áspero ceticismo próprio dos que passam a vida inteira sendo difamados, caluniados, perseguidos e mortos pelos comendadores do imperialismo ocidental. Mas os vários delegados internacionais voltaram a seus países confirmando a autenticidade do documento a seus correligionários escandalizados; a testemunha do Partido Comunista do Brasil no XX Congresso fora o ideólogo marxista Jacob Gorender e coube a ele desiludir seus camaradas. Um misto de horror e melancolia marcou o encerramento daqueles longos anos em que eles encaravam denúncias de crimes de Stalin como calúnias panfletárias da hipocrisia anticomunista.

O bloco comunista sofreu o impacto do Discurso “Secreto” de acordo com a natureza de cada regime. Os partidos e regimes marxistas-leninistas da Polônia, da Hungria, da Tchecoslováquia, da Alemanha Oriental, da Bulgária, da Romênia, e da Mongólia, aceitaram os relatos automaticamente–eles eram pouco mais que extensões locais do PCUS e títeres da URSS, respectivamente. O regime stalinista de Enver Hoxha na Albânia comunista–que tomara o poder com a retirada das tropas nazistas sem depender da Exército Vermelho–não deu o braço a torcer. Hoxha rompeu com o PCUS e a Albânia logo rompeu relações diplomáticas com a URSS. A China de Mao Tsé-tung tampouco reconheceu a veracidade das denúncias. Acrescendo uma defesa de Stalin aos vários atritos geopolíticos e militares que vinha cultivando com a URSS, a China maoísta iniciou um afastamento gradual e amargo com o ex-aliado. Embora a ruptura de laços diplomáticos ainda fosse levar alguns anos, o Governo Mao não tardou em ensaiar um bloco com a Albânia de Hoxha, encorajando cismas no seio de cada PC no globo terrestre. As linhas soviética e maoísta (ou maoísta-hoxhaísta) inauguraram um antagonismo que nunca mais superariam plenamente. No PCB, essa opção entre lealdade à URSS e lealdade a Stalin levou o Comitê Central a afastar os defensores do rompimento com Moscou em 1958, restando-lhes somente a expectativa irreal de capturar os órgãos decisórios–e reverter a linha partidária–no congresso marcado para 1960. Mas comitês central nenhum sofreu derrota em Congresso de PC, e os stalinistas se retiraram do partido. Aproveitando a decisão do PCB de mudar seu nome de PC do Brasil para PC Brasileiro, a dissidência stalinista se apossou da denominação original para conjurar a ficção de serem a verdadeira continuidade da entidade. Tornou-se assim, o primeiro PC do mundo, dentre os estranhos ao poder governamental, a romper com a União Soviética em nome da exaltação a Stalin.

A “Des-estalinização” apresentou características curiosas. O discurso de Khrushchev deplorou a voracidade das perseguições anti-trotskyistas por paranoia e oportunismo, mas não negou a ameaça ao leninismo que o PCUS enxergava no trotskyismo. Várias figuras satanizadas pela ditadura stalinista foram reabilitadas, mas quase nenhuma era trotskyista. O Discurso Secreto teve o cuidado de valorizar os avanços econômicos da formidável industrialização que o país vivera, mas atribuía a responsabilidade e salientava a contribuição de inúmeros protagonistas eliminados pelo regime. A redenção das milhares de vítimas dos grandes expurgos partidários contemplou tantos adeptos de Bukharin que a oposição bukharinista à URSS acabou perdendo urgência. Mas talvez a repercussão mais subestimada tenha se dado na dimensão . Os stalinistas há 60 anos embaralham relativizações insensíveis, tergiversações cínicas e negativas descaradas para defender seu grande líder. Chamam quaisquer anti-stalinista da Esquerda de “revisionista” com indisfarçável desprezo. O rótulo havia estreado na terminologia bolchevique como eufemismo para generalizar os desafetos; com o tempo virou hipérbole para criminalizar os dissonantes. A partir de 25 de fevereiro de 1956, essa criminalização pautou um sem-número de surtos acrimoniosos de sectarismo, em que grupos idênticos em doutrina (e até em método) se polarizaram em torno de irreconciliáveis narrativas, bíblicas de tão intransigentes.

As Lutas Integradas de Clara Fraser

Hoje a perda de uma figura insubstituível da Esquerda completa uma melancólica maioridade. Morreu no dia 24 de fevereiro de 1998, na cidade de Seattle, nos EUA, após anos de luta contra a enfisema, a incansável ativista Clara Goodman Fraser. Faltavam-lhe três semanas para completar 75 anos de vida e 59 de militância socialista. Clara era uma jovem de 16 anos quando filiou-se ao Socialist Party of America (“Partido Socialista da América”), ou SPA, ainda numa escola de segunda grau em sua cidade natal de Los Angeles. No entanto, podemos dizer que a sua trajetória de luta já se anunciava desde o berço. Seu pai, Samuel Goodman, era líder anarquista e organizador irrepreensível da luta sindical dos caminhoneiros. Sua mãe, Emma Goodman, de orientação socialista-democrática (no sentido marxista), organizava o Sindicato Internacional de Trabalhadores da Indústria do Vestuário Feminino na região da Costa Leste. Samuel era um judeu da Lituânia–então parte do Império Russo–que emigrara para os EUA para escapar dos pogroms antissemitas do governo tsarista. Emma era uma judia da Rússia ocidental que emigrara para os EUA para escapar dos pogroms antissemitas do governo tsarista. Formavam um casal típico da comunidade judaica dos Estados Unidos, fugitivos do ódio sanguinário que o Império Russo nutria pelos judeus, e enlaçados pelo amor e pelo compromisso revolucionário tão onipresente na comunidade yidish da época.

Clara Goodman passara a primeira metade dos anos quarenta como uma diligente integrante do SPA, mas após completar a graduação em Literatura e Educação na University of California começou a se aproximar do trotskyismo. Em 1945, quando marxistas nos EUA e no mundo entravam na órbita do(s) Partido(s) Comunista(s), encantados com as vitórias extraordinárias do Exército Vermelho na guerra contra o nazi-fascismo, Clara aderiu ao Socialist Workers’ Party (“Partido Socialista dos Trabalhadores”) e abraçou suas posições anti-stalinistas. O Socialist Workers’ Party, ou SWP, era a principal organização trotskyista dos Estados Unidos, e havia sido organizada por Albert Goldman, Max Shachtman, Maurice Spector, e James Cannon na virada de 1937 para 1938. Clara ficou encarregada de construir um diretório para o SWP em Seattle, onde foi morar em 1946, lá ficando até o último suspiro 52 anos depois. Nesse meio tempo firmou-se como a militante socialista mais marcante da cidade.

Um antológico episódio nesse sentido se deu ainda em 1948, quando 15.000 trabalhadores da fábrica de aviões da Boeing entraram em greve. Clara, que trabalhava como eletricista, reagiu a uma injunção proibindo os piquetes dos trabalhadores com sua característica criatividade: reuniu as mulheres do sindicato em uma brigada “armada” de carrinhos de bebê. A brigada se tornou um verdeiro “piquete infanto-maternal” que arremessou os manda-chuvas da Boeing num estado de torpor e Clara na Lista Mestra de Subversivos do FBI. Clara perdeu o emprego, foi marcada como trabalhadora inaceitável no rol da Boeing, e passou uma década sob a vigília macabra do FBI, mas ganhou uma reputação legendária no movimento trabalhista e trouxe ao SWP incontáveis novos militantes.

Mas Clara não tinha a menor intenção em limitar-se ao ativismo sindical. Havia tempos que ela formara uma consciência feminista, mas no começo dos anos 50, por volta da época em que se casou com Richard Fraser, embarcou na causa de corpo e alma, a ponto de se tornar a maior referência feminista da SWP. Foi uma questão de tempo até que se tornasse a grande ideóloga feminista do Partido. Foi uma questão de tempo um pouco maior até se tornar uma referência nacional da causa, para além não só do trotskyismo como do socialismo de modo geral. Uma observação cuidadosa de sua prolífica produção teórica sobre o assunto mostra, entretanto, uma visão do feminismo bem distinta da ortodoxa trotskyista. Ela repelia a visão prevalente na qual a luta das mulheres cumpria um papel não mais que subsidiário na luta de classes. Ao contrário, a própria natureza da luta de classes se sofisticava de acordo com as demandas do patriarcalismo machista. Se por um lado a originalidade de suas formulações atraiu muitas feministas radicais para o marxismo revolucionário, por outro tornava-as de difícil digestão para o alto clero do partido. Mas a sempre audaz e continuamente ideológica Clara Goodman Fraser nunca foi mulher de permitir que obrigações partidárias comprometessem suas análises dialéticas–provando isso pelo resto da vida.

E não só em seu protagonismo no movimento feminista mas também no apoio ao movimento negro. A vocação racista da sociedade americana indicava que havia muito mais que luta de classes–ou luta de sexos–na História do país. Tese essa que seu marido Richard Fraser pregou aos quatro ventos do trotskyismo. Richard era um pesquisador      da História dos negros nos EUA. Correspondia sua dedicação inesgotável a um engajamento prático nas lutas contra o racismo. Percorria o país convencendo sindicatos a fazer greves contra a segregação racial, mobilizou os recursos da SWP para amparar os boicotes públicos do movimento negro, abriu as portas da imprensa marxista para os defensores da união dos afro-americanos. E em 1988, aos 75 anos, quando só lhe restavam vinte e dois dias de vida, mobilizou um protesto que levou ao desmantelamento da Ku Klux Klan em Seattle. Clara foi a porta-voz mais enfática de suas teses, pelas quais concluiu que o modus operandi do trotkyismo frente ao movimento negro era bem mais proveitosa para fins de recrutamento do que assimilação das ideias em marcha. Ela via a “revolução negra” como um processo ao qual a revolução socialista devia se integrar e não direcionar. Foi o marco anunciativo de sua tese de “integracionismo revolucionário”, que a faria uma das marxistas brancas mais respeitadas pelo movimento negro americano. Se Richard explicou a interdependência das causas afro e socialistas no livro “Integração Revolucionária: Uma Análise Marxista da Libertação Afro-Americana”, Clara a pôs em prática em suas defesas enfáticas das propostas nascidas no movimento negro que colidiam com o purismo cético dos ativistas clássicos. E, lógico, na sua inescapável participação em todos os atos públicos locais contra o racismo.

O “integracionismo revolucionário” pôs os Frasers em atrito ininterrupto com a direção do SWP. Eles participaram, em 1961, da criação da “Tendência Revolucionária”, numa tentativa de disputar os rumos da agremiação. Quando os principais integrantes do grupo foram expulsos do SWP–em manobra referendada pela Quarta Internacional trotskyista em 1965–os Frasers responderam com o livro Crise e Liderança, obra seminal do trotskyismo americano. À frente de uma corrente de codinome “Kirk-Kaye”, passaram a organizar lutas de massa por fora do partido. Clara encabeçava manifestações públicas que desafiavam ostensivamente a linha do SWP para a causa feminista (considerada artificial), para a causa afro-americana (considerada condescendente), para a causa contra a Guerra do Vietnã (considerada inexistente) e para a causa LGBT (inexistente). O ponto de ruptura veio em 1966, quando Clara liderou a formação de um novo partido dissidente, composto pelos “revolucionários integracionistas”. Com o nome de Freedom Socialist Party (“Partido Socialista da Liberdade”), a nova agremiação propôs a formação de uma frente unificada do feminismo radical, realizando o feito ainda em 1967. Clara Fraser e sua aliada Gloria Martin fizeram do novo grupo, chamado Radical Women (“Mulheres Radicais”) a principal força de disseminação de consciência de classe no movimento feminista. O livro Revolution, She Wrote de Clara delineou uma nova orientação para o marxismo feminista e precipitou o crescimento da nova frente.

Tanto o Freedom Socialist Party (ou FSP) quanto as Radical Women seguem firmes e fortes até os dias de hoje. Foi Clara Fraser, como líder do FSP, que em 1974 iniciou uma batalha judicial contra a empresa pública de iluminação Seattle City Light. Clara foi demitida por uma iniciativa contra o assédio sexual e o favoritismo machista na companhia; após sete anos de luta ela conseguiu pôr os patrões de joelhos e ainda impôs o reconhecimento de seu “Comitê de Empregados por Direitos Iguais na City Light”. Seu êxito fez com que comitês similares brotassem por todo a cidade de Seattle, e também em outras cidades no estado de Washington. Foram anos de muito sacrifício para o FSP, mas que fizeram de Clara uma celebridade nacional e uma das vozes mais reconhecidas da esquerda feminista. Ao longo dos anos 80 produziu uma quantidade extraordinária de artigos que encontraram de costa a costa um público cativo–e combativo. Foi também época de construção de uma editora marxista chamada Red Letter Press, articulada por Clara, subsidiada pelo FSP e dotada de um catálogo admirável de livros de impacto. O irresistível apelo dessas obras foi o combustível do FSP para  formação, já na década de 1990, da “Frente Unida Contra o Fascismo” que mantém-se na vanguarda do combate ao racismo, ao neo-nazismo, ao antissemitismo e à homofobia do noroeste americano. Com o engajamento visionário de Clara Goodman Fraser, o FSP amealhou uma influência incalculavelmente maior do que a sua base partidária. A morte dessa revolucionária polivalente nos privou de uma referência singular nas lutas sociais. Mas o seu legado permanece mobilizando guerreiros ao redor da Esquerda americana e expandindo horizontes de marxistas do mundo inteiro.

Clara Fraser

REPARA O FILME: “O Último Rei da Escócia” e Uganda Compreendida (PARTE I)

A partir de hoje o REPARA O MUNDO discutirá como obras do cinema e a realidade histórica se relacionam. Nesse segmento–chamado “Repara o Filme”–o blog avaliará o impacto de certos filmes na nossa compreensão da Humanidade, e começaremos pelo primeiro de quatro artigos sobre “O Último Rei da Escócia”. Trata-se de uma obra de ficção dirigida por Kevin Macdonald e estrelada por James McAvoy como o médico escocês Nicholas Garrigan. O filme se passa na Uganda dos anos 70, onde o recém-formado Garrigan resolve morar, e fala de seu relacionamento com o presidente Idi Amin Dada, como médico, amigo e confidente. É uma adaptação do romance homônimo de Giles Foden; mas que também se propõe a retratar tanto Uganda quanto o ditador Idi Amin (magistralmente encarnado por Forest Whitaker) com realismo.

Os quatro artigos do “Repara o Filme” tratarão:

(I) de como o filme se relaciona com o estudo dos adversários do regime de Idi Amin Dada;

(II) de como o filme se relaciona com o estudo da História de Uganda;

(III) de como o filme se relaciona com o estudo específico de Idi Amin e seu governo;

(IV) do filme como realização artística, dos seus defeitos, dos seus méritos–e se eles ajudam ou atrapalham a tomada de consciência.

Começaremos com os adversários de Idi Amin; primeiro porque, não sendo eles o foco do filme, não exigem que questões específicas ao quarto artigo sejam antecipadas. E ao mesmo tempo introduzem questões que só ficarão complexas nos próximos dois artigos. Mas o principal motivo é para marcar os 39 anos do assassinato do ativista ugandense Janani Luwum, legítimo herói de seu povo e destemido defensor dos Direitos Humanos. Trabalhava como arcebispo anglicano da África Oriental mas sua realização estava na luta ugandense contra as arbitrariedades do governo. Sua causa que envolvia riscos que se concretizaram no dia cinco de fevereiro de 1977, quando soldados de Idi Amin invadiram sua casa e levaram-no ao cárcere. Ficou incomunicável por onze dias até ser arrastado para uma farsa judicial pública aberta ao público e presidida pelo próprio Amin. Ele e outros seis bispos foram condenados por tráfico de armas para abastecer grupos revolucionárias, mas Luwum–que estava proibido de falar–negou todas acusações balançando a cabeça. Sem efeito, evidentemente, pois os sete foram sumariamente julgados e condenados. Foi quando Idi Amin gritou aos soldados na platéia: “O que fazer com esses traidores?” Eles responderam: “Mate-os agora!” Luwum foi separado dos demais e apareceu morto no dia seguinte, “vítima de um acidente de carro”, na versão do governo. “Acidente” que ceifou, inacreditavelmente, outras vidas: Charles Oboth Ofumbi e Erinaya Oryema, ministros de Estado que Amin recentemente demitira e condenara num julgamento idêntico ao de Luwum–e naquele mesmo dia.

Janani Luwum

Os ugandenses elegeram Janani Luwum (1922-1977) um dos maiores nomes do país. Ele é lembrado por ativistas dos Direitos Humanos ao redor do continente africano.

A morte de Luwum foi quase tão emblemática quanto a vida. Foi um assassinato brutal, clandestina, com alguns detalhes que ainda parecem um tanto nebulosos (há quem diga que Amin o matou pessoalmente) Nesse aspecto foi uma execução bem representativa das milhares sofridas por ” inimigos de Estado”. Igualmente representativos foram o julgamento fraudulento antecendete e o acobertamento fraudulento subsequente. A discrepância entre a versão oficial do governo e a realidade do crime também foi tipicamente absurda. Luwum e os ex-ministros Erinayo Oryema e Oboth Ofumbi teriam batido com o carro no qual soldados os levavam (para onde?) na tentativa de assumir o volante. Os soldados teriam sofrido apenas leves escoriações. Os cadáveres foram entregues pelo governo em caixões selados, mas o de Luwum foi aberto durante o enterro, revelando três tiros no peito e um na boca. Oryema também sofrera três tiros no peito, bem como Ofumbi, que ainda levara um na perna.

Obothi Ofumbi e Erinayo Oyema serviram a Idi Amin com lealdade, mas foram acusados de armar os dissidentes. Morreram porque “sabiam demais” e poderiam revelar as atrocidades do regime.

“O Último Rei da Escócia” não pode ser cobrado por não incluir o heroísmo de Luwum–pelo menos não dentro de sua proposta. A história é vista pelos olhos de Garrigan, que passa a maior parte do tempo encastelado no poder e desfrutando da amizade do ditador. Deslumbrado pelas benesses do poder–e sempre cativado pelo irresistível carisma de Idi Amino–Garrigan enxerga o mundo à sua conveniência. Ele não poderia ver Luwum senão como o traidor terrorista que Amin descreve. Ele abraça as versões de Amin junto com as prebendas, sem muito escrúpulo. Ele recebe numerosos avisos sobre a natureza sanguinária do regime com conveniente ceticismo. Seria um tanto difícil expor a verdade sobre Luwum nesse enredo, a menos que um dos alertas a Garrigan pudesse entrassem nos detalhes de sua vida e morte. A ausência de Luwum não é grave–de qualquer modo ele merece seu próprio filme.

Espaço mesmo havia para Milton Obote, líder da independência e primeiro governante de Uganda. Não para mostrá-lo, porque o filme começa com Obote já deposto por Amin (e termina antes de seu regresso ao país). Mas os personagens do filme poderiam ter feito referências mais detalhadas do homem que figura entre os mais importantes da História ugandense. De Idi Amin saem, é claro muitas referências a Obote, sempre negativas, o que faz justiça à realidade. Amin culpava Obote por tudo; a luta para destruí-lo era justificativa pra metade de seus desmandos. Se personagens sem vínculos com a ditadura tivessem situado Obote para o público, ele ficaria com uma noção melhor de como Amin enxergava a Uganda–e aquele momento histórico.

O Governo Obote vivia uma crise sem precedentes à época do golpe de Amin em janeiro de 1971. O Conservative Party mal vencera as eleições britânicas e já arquitetava a derrocada do seu regime socialista. No Sudão o novo ditador Gaafar Nimeiry vinha arrasando as forças revolucionárias apoiadas pelo seu governo. Pesavam sobre ele acusações severas–e convincentes–de corrupção. Em meio ao seu conflito com o Reino de Buganda (a maior província ugandense) ele decretara uma intervenção e suspendera a Constituição. Mas o que ouvimos de concreto no filme é um comentário da personagem Sarah Merrit a um Nicholas Garrigan impressionado com a efusão popular diante de Amin: “Não fique impressionado. Eles também vibravam assim com Milton Obote até ele começar a gerir o país como se fosse seu cofrinho particular.”

Apollo Milton Obote tornou-se Primeiro-Ministro de Uganda em 1962 e Presidente em 1966. Foi acolhido na Tanzânia de Julius Nyerere após o golpe de 1971. O “Movimento à Esquerda” de Obote e o ujamaa de Nyerere eram propostas de socialismo. Em 1979 Nyerere derrotou Amin e Obote regressou a Uganda.

Por fim, o que mais encaixaria no filme seria a Guerra Uganda-Tanzânia (1978-1979). Não como parte do enredo, mas nas explicações finais sobre a derrocada de Amin. A menção que fazem não dá ao espectador a noção do que esse conflito representou. Que não haja dúvida: o governo tanzaniano de Julius Nyerere foi o verdadeiro responsável pela queda de Idi Amin Dada. De uma certa forma, Amin estava levando sua rivalidade com Nyerere às últimas consequências com a agressão à Tanzânia. E perdeu. As relações entre o anticomunista Amin e o afro-socialista Nyerere–que era amigo de Milton Obote–nunca foram muito boas. Mas isso o filme não ilustra, para prejuízo de um público que merece entender a complexa dinâmica entre os três líderes.

O “Populismo” na Narrativa Bolchevique

O último artigo do REPARA O MUNDO sobre o conceito de “populismo” se dedicou a explicar a origem do termo na esquerda russa no século XIX e a mostrar sua aplicação, como rótulo, a fenômenos bem diferentes. Para entender como essa expressão saiu do berço rumo à banalização, é necessário conhecer a crítica marxista aos “populistas” do Império Russo. Foi a partir dela que Vladimir Ilich Ulyanov–ou Lênin, como a História o conheceu–consolidou a conotação negativa do rótulo. E que comunistas do mundo inteiro levaram ao extremo.

O NARODNICHESTVO VISTO PELOS MARXISTAS

Ao longo das décadas de 1870, 1880 e 1890, as organizações populistas (narodniks, em russo) promoveram ações diretas–algumas violentas–para desencadear uma revolução camponesa. Nenhuma trouxe maiores avanços à causa do socialismo camponês; sob certa medida foram até contraproducentes. A frustração resultante abriu espaço para a difusão da ideologia marxista. Os “social-democratas”, como os adeptos do marxismo se chamavam, acusavam a proposta narodnik de pobreza científica. Ela falava em reverter a sociedade feudal da Rússia para o coletivismo camponês de tempos passados–e longínquos. Para Marx, esse “comunismo primitivo” era inatingível: a sociedade avançaria cedo ou tarde para um capitalismo industrial; o feudalismo seria superado, não revertido. O capitalismo poderia até ser superado por um “comunismo avançado”, mas com uma revolução operária, não camponesa. Os social-democratas não negavam a boa-fé dos narodniks, mas apenas denunciavam uma falta de compreensão da História e uma excessiva romantização do campesinato.

narodnaya-volya

Integrantes da organização populista Narodnaya Volya: Anna Korba, Nikolay Rysakov, Olga Lyubatovich, Alexander Kwiatkowski, Stepan Kalturin, Sergei Kravchinsky, Nikolay Morozov, Gesya Gelfman, Timofei Mikhailov, Vera Figner, Mikhail Frolenko, Sophia Perovskaya. O nome do grupo inspirou o termo “narodnik”.

O marxismo viram a Lei de Emancipação do Camponês de 1861 com muito menos entusiasmo que ideólogos precursores do populismo (ou narodnichestvo) como Alexander Herzen. Promulgada pelo tsar russo Alexandre II, ela tinha, de fato, a grande virtude de abolir a servidão, pela qual o camponês estava pessoal e socialmente vinculado ao feudo onde vivia e de onde jamais poderia. Mas os social-democratas sabiam que a mobilidade da mão-de-obra era também uma demanda do capitalismo: a população precisava migrar às grandes cidades, onde o CAPITAL se concentravam, e produzir para a indústria. As oportunidades de emprego nos centros urbanos acabaria reduzindo e desagregando o campesinato; a revolução camponesa era simplesmente inviável. Os narodniks (que raramente se reivindicavam como tal, diga-se de passagem) nunca mais tiveram sossego dos social-democratas, nem mesmo (ou muito menos) daqueles que militaram no narodnichestvo. Fosse a Zemlya i Volya ou a Narodnaya Volya, fosse a bancada dos Trudoviks ou Partido dos Socialistas-Revolucionários, fosse a Cherniy Peredel ou o Partido Socialista Popular, todo grupo narodnik estava fadado a colidir com o marxismo.

Mas a colisão pode se dar de maneiras distintas. Depois da divisão do marxismo russo entre “mensheviks” e “bolsheviks“, os últimos se mostraram mais intransigentes com o narodnichestvo. Isso ficaria nítido a partir da Revolução Russa de (fevereiro de) 1917, da queda do tsarismo, e da instalação de um “Governo Provisório”, cuja direção logo caberia aos narodniks–os preferidos da imensa maioria camponesa. Os bolsheviks moveram intensa oposição ao Governo Provisório, que tinha um trudovik, Alexander Kerensky, no leme. Lênin, líder do bolshinstvo (e irmão de um antigo mártir da Narodnaya Volya) sempre fora um dos mais formidáveis críticos do nardonichestvo em toda a social-democracia russa. Mas ao longo de 1917 suas denúncias tipicamente sofisticadas deram lugar a uma virulência mais panfletária, porque ele–em contraste com os mensheviks–queria derrubar o Governo Provisório. Nessa mudança de tom o rótulo “populista” foi impactante: àquela altura a maior força narodnik (aliás, da esquerda russa) era o Partido dos Socialistas-Revolucionários, cujos integrantes os mensheviks e bolsheviks chamavam de “SRs” ou “Esers”. Afinal, faria sentido para um marxista chamá-los de “socialistas-revolucionários” se ele próprio era socialista E revolucionário? Mas os bolsheviks foram além nesse aspecto, porque foram usando epíteto “populista” com frequência cada vez maior, e com sentido cada vez mais pejorativo–para sempre enfatizar uma incompatibilidade marxista com os “socialistas-revolucionários”. Por um lado isso daria uma certa legitimidade, nos marcos do marxismo, para derrubá-los junto com os demais narodniks (como Kerensky). Por outro lado isso precipitou uma certa ampliação no sentido de “populista” e que, a partir da década de 1920, se prestaria a um utilitarismo vulgar e até difamatório de estigmatizar qualquer movimento popular carente de traços marxistas.

O CAMINHO SEM VOLTA DOS BOLSHEVIKS

Só que a pregação leninista contra o Governo Provisório não se limitou a críticas marxistas ou denúncias vorazes aos trudoviks e socialistas-revolucionários; atingiu também os mensheviks, ainda que boa parte do grupo (talvez a maior) estivesse na oposição. Só que essa oposição dos “Mensheviks de Esquerda” (bem como a dos ditos “Socialistas-Revolucionários de Esquerda” não se empenhava em pegar em armas contra Kerensky. Criticavam sua decisão de manter a Rússia na (Primeira) Grande Guerra mas apoiavam a autonomia nacional para os vários povos do antigo Império Russo. Depositavam as esperanças no pleito que Kerensky convocara para eleger uma Assembléia Constituinte. Os bolcheviques enxergavam nessa tática conjuntural uma falta de compromisso revolucionário de mencheviques e narodniques. Na verdade, tanto os mencheviques quanto os “Socialistas-Revolucionários de Esquerda” apoiaram o governo que os bolcheviques formaram após derrubar de Kerensky em outubro na Revolução de Outubro. O divisionismo, contudo, já estava semeado; seus mais venenosos frutos brotariam em pouco tempo.

Dois narodniks, destinos opostos: o trudovik Kerensky, chefe do Governo Provisório, foi derrubado pelos bolcheviques; Mark Natanson, da Esquerda do Partido dos Socialistas-Revolucionários, apoiou a Revolução de Outubro e aderiu ao partido de Lênin. Rompeu em 1919 com o fim do multipartidarismo.

A ruptura começou ainda na posse da Assembléia Constituinte. Lênin respeitara o calendário eleitoral do Governo Provisório, mas o eleitorado camponês garantiu uma vitória fantástica dos “Socialistas-Revolucionários de Direita”. Os bolcheviques (donos de uma bancada muito menor) fecharam a Assembléia no primeiro dia de funcionamento, prometendo um governo pelos soviets. Eram conselhos populares formados no ocaso do tsarismo, que apoiaram, majoritariamente a Revolução de Outubro. Isso não traduzia necessariamente em hegemonia bolchevique, e depois de Lênin assinar um tratado humilhante para tirar a Rússia da guerra, menos ainda. As esquerdas só não romperam de vez porque o “governo soviético” dos bolcheviques comandava as luta contra as forças antissocialistas–os “Brancos”. Houveram episódios de levantes socialistas contra os bolcheviques, mas hostilidade mesmo só veio quando a dita “Rússia Soviética” agrediu a soberania dos países nascidos com o fim do Império Russo.

Um caso particularmente emblemático foi a Invasão Soviética da República Democrática da Geórgia em 15 de fevereiro de 1921. Mesmo lembrando que o Governo Lênin tomou a maioria de suas medidas duras premido pela Guerra Civil, a ofensiva contra a Geórgia era impossível conciliar com a autodeterminação que os bolcheviques sempre defenderam. Para muitos georgianos, essa era apenas a mais recente agressão das inúmeras que sofreram sob tacape russo. O Exército Vermelho sempre se justificava, dizendo que incursões desse tipo eram necessárias para vencer Guerra Civil. Se esse argumento falhasse restava denunciar o caráter reacionário desses os governos. Não se comprovam alegações desse tipo com muita facilidade, mas no caso da República Democrática da Geórgia era impossível: os soviets locais haviam estabelecido o governo, os mencheviques o encabeçavam e uma Constituição socialista o regia. A narrativa conjurada em defesa dessa invasão demandou portanto uma narrativa inteiramente injusta, até cruel, com o menchevismo georgiano. Completamos 95 anos dessa farsa.

Dois mencheviques governaram a Geórgia: Noe Ramishvili (1918) e Noe Zhordania (1918-1921). Em 15 de fevereiro a Rússia Soviética invadiu o país, que só voltou a ser independente em 1991–mas sem socialismo

Triste mesmo foi esse tipo de tratamento virar hábito. No começo a grande preocupação de Lênin era dar credibilidade a seus atos; no caso da Invasão da Geórgia, era necessário dissociá-la do histórico expansionismo russo. Nada melhor, portanto, que confiar a um bolchevique georgiano a tarefa de apólogo. Ela recaiu sobre um burocrata ardiloso e malemolente chamado Iosip Vissarionovich Dzhugashvili–conhecido como Josef Stálin. Ele, que havia aprendido a jamais questionar Lênin (pelo menos em público) desde uma arenga com o líder inconteste que travou sua ascensão, aceitou a incumbência com entusiasmo e cumpriu-a magistralmente. Stálin, sempre diligente e prestimoso, assinou uma série de artigos contra a independência de seu povo, sempre com falaciosas tergiversações sobre a questão da nacionalidade. Suas mistificações renderam-lhe um livro, alavancaram a sua carreira, e comprovara sua insuperável vocação de justificar o injustificável. Fraudes dessa natureza ainda iriam virar regra.

A COMINTERN “DUPLIPENSOU” E O MUNDO FOI NA ONDA  

A Internacional Comunista (ou “Comintern”) que Lênin fundara em 1919 foi a grande retransmissora desse naipe de racionalização. Onde houvesse uma seção nacional da Comintern, as esquerdas não-bolcheviques–fossem populistas, mencheviques ou luxemburguistas–teriam de combater uma péssima. Lênin foi, com toda justiça um estadista talentoso, habilidoso, dotado de firmeza e foco, de disciplina e energia; adotou posturas draconianas na sincera convicção de que as conquistas revolucionárias estava em jogo. A tragédia se deu no modo como os seus estragos viraram virtudes nas justificativas ipso pos facto dos Partidos Comunistas. No “consenso fabricado” da Comintern a tradução de “narodnichestvo” foi banalizada e a invasão da Geórgia praticamente esquecida. E piorou quando Stálin tornou-se o líder soviético. Lênin podia forçar a barra, mas o burocrata georgiano espalhava epidemias.

É assustador pensar como várias narrativas e expressões propagadas pela Comintern ultrapassaram as fronteiras da organização. Termos pejorativos cunhados por Lênin, como “social-imperialistas” e “esquerdismo”, ou por ele tornados pejorativos, como “mencheviques” e “populismo”, viraram ofensas mesmo entre a esquerda não-comunista. Não é à toa que quase ninguém se diz menchevique; muito menos populista. Esta última ficou particularmente vaga, de modo que em seu balaio coube toda figura ou fenômeno com cara de popular, mas sem caráter comunista. Entendendo “popular” como “demagógico” (“popularesco”, porque não?) e “comunista” como “sincero” (ou “revolucionário”) o rótulo só podia ser ofensivo mesmo. A Direita assimilou essa noção com gosto, porque nem sempre a jogada de chamar os adversários de “comunistas” convence. “Populista” é a alternativa perfeita pela sensação de “popular-sem-ser-comunista”. A vulgarização do termo atravessou as barreiras ideológicas de forma quase comovente.

Mas dentro de “popular-sem-ser-comunista” cabe de tudo, direitas e esquerdas, autoritários e libertários, listrados e quadriculados. Alguns intelectuais, como Torquato Di Tella, até tentaram refinar a definição–às vezes de modo bem convincente–mas nenhum conseguiu desmerecer a permanente banalização do rótulo. Na verdade, poucos tentaram. Uns até ajudaram. (E alguns parecem ter enfiado o pé na jaca mais até que os papagaios da mídia). O rótulo, portanto, segue firme, por aí, satisfazendo caprichos de reducionistas de qualquer patota, fazendo troça com tudo que parece popular-sem-ser-comunista, ajudando permitindo que esquerdas estigmatizem adversários inegavelmente populares, e que direitas estigmatizem adversários inegavelmente não-comunistas,

Só que o Repara o Mundo, da esquerda criteriosa, não dá trégua a nenhuma ordem de mistificação política.