O Holocausto na França: o Dia em que a Adesão Virou Espetáculo

Na França, o Dia de Memória do Holocausto é 16 de julho. Ele marca o infame episódio em 1942 que entrou para a História como “Rusga do Velódromo de Inverno de Paris”—“La Rafle du Velodróme d’Hiver”, em francês. Para muitos estudiosos, o extermínio dos judeus da França efetivamente começou nesse dia.

La Rafle du Velodróme d’Hiver”—ou simplesmente “Rafle du Vel’ d’Hiv”—foi uma operação conjunto de tropas alemãs de ocupação com as autoridades colaboracionistas francesas. Seu objetivo era sequestrar a população judaica de Paris e deportá-la para campos de concentração. Entre às quatro horas da manhã de 16 de julho e a noite do dia seguinte, 13.152 judeus foram detidos—dos quais 4.051 eram crianças com menos de dezesseis anos.

A França na ocasião estava dividida entre duas jurisdições. O norte do país—incluindo toda a sua costa atlântica, estava sob ocupação direta das Forças Armadas do III Reich. A metade ao sul era chamada de zone libre (“zona livre”) cuja administração era de responsabilidade do Presidente Henri-Philippe Pétain, e de um ministério composto por franceses dispostos a colaborar com os nazistas.

pétain

O Marechal Henri-Philippe Pétain era um herói francês da Primeira Guerra Mundial. Em 1940, com os alemães derrotando as tropas francesas, ele se apresentou como o único líder nacional capaz de fazer um acordo com os invasores. Dizia que era necessário “para derrotar o judaísmo-maçônico-bolchevique”

Teoricamente, o governo de Pétain era a autoridade nominal de todo o Império Francês. A presença de tropas alemãs na área setentrional estava prevista no armistício de 1940 assinado entre Adolf Hitler e o Marechal Pétain–recém-empossado na presidência da França com poderes extraordinários. O acordo permitia que a Wehrmacht alemã assumisse o controle do norte da França até derrotar a Grã-Bretanha. Como os britânicos não foram derrotados, as tropas foram ficando.

França Vichy

A França assinou um armistício com as potências do Eixo em 1940. Em tese, a área ao sul era soberana, e seu governo tinha sede em Vichy, uma cidade com um excelente sistema telefônico e hoteleiro para que Pétain administrasse o país.

Mas mesmo na zone libre o governo de Pétain (sediado na cidade de Vichy) estava sob a tutela do Eixo. Entre as suas obrigações perante o III Reich estava a absoluta cooperação com o extermínio da população judaica. Para não desfazer a aparência de soberania do governo em Vichy, a Alemanha nazista delegava a tarefa de detenção da população judaica às próprias autoridades policiais francesas, como era o caso do préfet René Bousquet. No dia 2 de julho de 1942, Bousquet compareceu a uma reunião em que o governo de Vichy, encabeçado pelo primeiro-ministro Pierre Laval, anunciava o compromisso de encarcerar toda a população judaica de Paris. Bousquet mostrou-se preocupado com o emprego de policiais franceses para a realização de uma tarefa nazista, pois isso poderia comprometer a imagem de governo soberano que o regime em Vichy conservava. Chegou-se a um entendimento: somente os judeus sem cidadania francesa seriam detidos, passando a impressão de que a decisão de Laval era uma iniciativa francesa contra uma população estrangeira.

Sob muitos aspectos, havia bastante iniciativa francesa na operação. Os nazistas não haviam exigido a detenção de crianças, mas Laval decidiu que seria necessário mesmo assim. (Anos mais tarde ele alegaria que era para não separar os filhos de seus pais—mais foi justamente o que aconteceu). Mas o mais significativo foi a adesão voluntária de milhares de antissemitas franceses se oferecendo para colaborar com os policiais de Laval. O mais emblemático deles foi Jacques Doriot, líder da agremiação ultranacionalista Parti Populaire Français, ou PPF. Vestindo uniformes azuis e braçadeiras no melhor estilo nazi-fascista—fazendo inclusive a saudação romana de braço erguido, cerca de 3400 jovens integrantes do PPF atenderam à convocação de Doriot para colaborar no arrastão de judeus. Reunidos no velódromo de ciclismo de Paris, o Velódrome d’Hiver, os seguidores de Doriot se comprometeram com a chamada Opération Vent Printempier (“Operação Vento da Primavera”) de Laval. Eles assumiram controle das instalações do velódromo, e lá trancafiaram a grande maioria dos judeus sequestrados naqueles dois dias.


As condições de detenção no Velódrome d’Hiver (ou Vel’ d’Hiv) eram asquerosas. Para aqueles 8000 judeus só havia uma única torneira—e nenhum lavatório acessível. As pessoas se espremiam de forma assustadora praticamente sem água ou comida. Os demais judeus não-franceses de Paris foram enjaulados nos campos de concentração de Pithiviers, Beaune-La-Rolande e, principalmente, Drancy. Mas o destino de todos seria o mesmo: Auschwitz.

Dentre as 13.152 pessoas detidas naqueles dias (dentre as quais havia um bebê de dezoito meses), menos de cem sobreviveram ao Holocausto. E o número poderia ter sido ainda maior: os nazistas estimavam que a Opération Venti Printempier atingiria a marca de 22 mil judeus detidos. Graças aos esforços da Resistência francesa, milhares de judeus de Paris conseguiram escapar da “Rafle du Vel’ d’Hiv”. Mas o III Reich não iria parar por aí. Até o final da Segunda Guerra Mundial 75 mil judeus habitantes da França (de um total de 340 mil) seriam deportados para campos de extermínio. Destes, menos de 2500 sobreviveram.

La Rafle du Vel’ d’Hiv não foi o primeiro arrastão contra judeus na França. Houve outro, bem menor, ainda em maio de 1941. A importância da “Rafle” está no fato de ter sido uma operação para levar os judeus diretamente aos campos de extermínio, e pela visibilidade chocante de enfurnar milhares de judeus no que era um dos cartões postais de Paris. O uso de um velódromo de ciclismo como centro de detenção deu um significado todo peculiar ao processo, inclusive porque o seu telhado de vidro fez do local uma verdadeira fornalha a partir do momento em que suas janelas foram todas trancadas. Poucos episódios do Holocausto na França foram tão ostensivos; a conspicuidade do Vel’ d’Hiv fez com que o genocídio sofrido pelos judeus se tornasse uma marca indelével na memória daquela geração. Foi o momento em que os colaboracionistas franceses se colocaram debaixo dos holofotes para todo o mundo ver a extensão de sua cumplicidade com o nazismo.

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As janelas do Velódromo de Inverno foram trancadas para evitar fugas. Com o telhado de vidro pintado de azul para camuflar o edifício, os prisioneiros sofriam um calor infernal.

Passados 74 anos, a Rusga do Velódromo de Inverno de Paris persiste como uma lembrança do que as pessoas estão dispostas a fazer ao aderir à causa do extermínio.

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