Quem Fiscalizou o Sarney? A Jogada Política do Plano Cruzado

Tancredo Neves nasceu no dia 04 de março de 1910; nenhum anjo anunciou o seu nascimento, nenhum rei-mago veio trazer presentes e certamente não houve Estrela de Belém para guiar algum que viesse. Mas quando ele morreu no dia 21 de abril de 1985, sem ter tomado posse na Presidência da República, a mídia–em sua inesgotável habilidade de mistificar a política brasileira–transformou sua morte em apoteose messiânica. Já havia transformado a sua doença em calvário bíblico, aliás.

O fato é que essa tragédia salvou Tancredo do inevitável desgaste de governar um País depenado e inválido, tendo prometido tudo e mais um pouco. Só não prometeu o que realmente sabia fazer: unir os políticos em blindagem contra os deveres impostos pelas crises. Por outro lado–pelo NOSSO lado–a tragicomédia de sua canonização uniu o povo em blindagem contra as reflexões exigidas pela História.

Tancredo operava no escuro para embromar em público. Não foi transparente sequer a respeito de sua doença e o País ficou estupefato com sua internação–às vésperas da posse na Presidência, ó ironia do destino. Parece que foi só então o Brasil se deu conta que, num primeiro minuto de emergência, o cargo ficaria com o inefável vice José Sarney. E a emergência que foi chegou–antes do primeiro minuto de governo–foi fatídica. Assim, com sua morte, Sarney assumiu a Presidência em (falta de) caráter definitivo. Bem como a tarefa de tirar o Brasil do buraco–sendo que sua especialidade sempre foi o inverso. Sarney, um cacique político nascido e forjado para direcionar o País sem precisar ser amado (ou mesmo muito conhecido), era para a Direita uma garantia perfeita contra seu grande medo: um desperdício da vocação de Tancredo. Da missão de Tancredo. Da urgência por um Tancredo. Em suma, da vocação, da missão, da urgência de proteger os políticos da Política. Sarney era um chacal maranhense, que não tinha (e jamais mereceria) a aura de democrata que a raposa mineira cultivara.

Sarney e Tancredo

José Sarney foi mais do que a garantia de vitória e da posse de Tancredo Neves: era a garantia de que as elites não seriam traídas

Saído dos bastidores, enfiado no meio do palco, debaixo dos holofotes, apresentando-se perante um povo com mais opções que os miseráveis de seu estado, o maranhense se viu em maus lençóis. O deserto mantinha a aridez, mas a miragem perdia nitidez: após um ano de mandato insatisfatório, adentrando um temível ano eleitoral adentro, o neo-coronel na Presidência anunciou o Plano Cruzado. O plano econômico do Ministro da Fazenda Dilson Funaro prometia curar o país da espiral inflacionária, a moléstia que a cada ano se agravava. O Brasil trocou uma miragem por outra.

José Sarney desmontou, num único golpe, a galopante inflação do Brasil e sua própria reputação (sempre merecida) de boitatá. O Plano congelou os preços. Preços congelados aumentaram o poder de compra. O poder de compra aumentadésimo precipitou a erupção do consumo. E um povo que consome muito encontra o sentido da vida. Congelamento, aumento, erupção e o sentido da vida fizeram o salto quântico na popularidade governamental. O Plano congelou os salários, por certo, mas derrubando a inflação multiplicou seus valores reais. Sarney, paralelamente, multiplicou seu valor irreal. E virou herói popular.

Mas a colisão do encanto de ser herói com a responsabilidade de dirigir a Economia era questão de tempo. Nenhum dos economistas por trás o Plano Cruzado  esperava um congelamento prolongado; eles sabiam que a medida era artificial e que os donos dos meios de produção acusariam uma queda nos lucros. Afinal, ustos de produção são raramente congelados na base do grito. O índice geral de preços do governo acabaria sendo ignorado pelos grandes vendedores, mais cedo ou mais tarde (leia-se mais cedo). Viria descongelamento na marra, e aí o que o Governo faria?

Um congelamento paliativo até fazia sentido–bastante–porque a economia brasileira quase nunca conseguia crescer sem que a inflação pegasse uma carona. Conter a inflação com cortes de gastos (sociais, de preferência) sempre fora uma possibilidade–sobretudo para ditadores como Castello Branco. Mas um País governado por Tancredo ou Sarney essa possibilidade era desagradável, por três motivos (nenhum dos quais era por preocupação social). O primeiro: perder eleição para eles sempre foi pior até que perder a mãe. A velha, já cumprira a missão trazendo-os ao mundo–mas mantê-los era o papel da vitória eleitoral. E cortes de gastos sempre as tornam mais improváveis.

O segundo: Tancredo e Sarney só foram eleitos por causa da “Aliança Democrática”, o pacto anódino entre o PMDB daquele primeiro e o PFL deste último. E só com ela conseguiriam governar. O detalhe era que PFL não passava de uma dissidência oportunista do PDS, que a ditadura criara–com o sugestivo nome de “Arena”–para defendê-la. Já o PMDB era, em certa medida, herdeiro do MDB, que a ditadura criara para lhe fazer uma oposição simbólica, inofensiva mesmo. O que os aproximava era a doentia obsessão por vitórias eleitorais; o PFL era capaz de tudo para vencer um pleito; o PMDB era capaz de quase tudo. Eram capazes, portante, de se aliar, mas eram igualmente capazes de romper. E se o governo mantivesse em 1986 os índices de desemprego de 1985, a derrota eleitoral em novembro uma forte possibilidade. E um clima de “cada-um-por-si” era ainda mais provável, e nesse caso a Aliança Democrática estaria efetivamente enterrada.

Aliança Democrática

Caciques da “Aliança Demcrática”, da esquerda para a direita: Tancredo Neves, que foi do MDB, lava as mãos; José Sarney, que foi da Arena, fica esperando no cantinho; Franco Montoro, que foi do MDB, com cara de quem não gosta de ficar na sombra de Ulysses; Ulysses Guimarães, que foi do MDB, encara tudo com muita naturalidade; Marco Maciel, que foi da Arena, faz algum discurso hipócrita; e Aureliano Chaves, que foi da Arena, tem que ficar parado e quieto pra não fazer besteira. O que os une? A vontade de vencer o povo.

E o terceiro motivo: nem Tancredo e nem Sarney, nem PMDB e nem PFL ignoravam que entre os candidatos das inevitáveis eleições presidenciais estaria o líder do PDT Leonel Brizola. Tampouco ignoravam suas chances imensas. Fosse em 1988, 1989 ou em 1990–a iminente Constituinte fixaria a data–a eleição direta para Presidente atestaria a imensa popularidade daquele socialista gaúcho que vinha governando o estado do Rio de Janeiro com êxito impressionante. As pesquisas de intenção de voto já o colocavam na liderança–liderança isolada, aliás. Sem exceção. Trocando os miúdos: um governo federal impopular não conseguiria detê-lo;  e, infelizmente aquele eleitorado pentelho estava mais exigente que nunca. Era frescura de eleitor que não acabava mais; eles chiavam contra o desemprego, faziam bico contra a inflação, ficavam de mimimi contra as injustiças sociais e o coitado do governo era forçado a trabalhar de verdade. Para silenciar o chororô daquele povo malcriado ia ser necessário mais do que mamadeira e Cremogema.

Nesse aspecto, o Plano Cruzado caiu feito uma luva–e que Sarney vestiu com mão de ferro. Mas não foi o único: Ulysses Guimarães, presidente a um só tempo do PMDB e da Câmara dos Deputados, estava tão empolgado com o sucesso nacional do Plano quanto o chefe de Governo. De modo que não deu bola ao alerta que a equipe econômica fazia, e menos ainda a suas recomendações de congelamento. Medidas amargas, dizia Ulysses, só depois das eleições. Os analistas do PMDB era inequívocos: afrouxar o Plano daria votos para a Esquerda e garra para os sindicatos. Qualquer aumento da inflação seria um risco, e se Brizola fizesse seu sucessor no governo fluminense ficaria um passo do Planalto. Era inaceitável, a Direita tinha pavor que o sucesso pedetista no Rio se prolongasse. Ulysses e Sarney estavam decididos: nenhuma alteração antes do fechamento das urnas. Essa convicção não os permitia reconhecer que quanto mais as medidas demorassem pra vir, mais amargas teriam de ser. Temiam apenas o aumento unilateral dos preços, mas até pra isso tinham uma solução, épica: mobilização popular contra o ágio.

Era a coreografia das lutas de super-heróis. De um lado, os reis da produção ignoraram o índice geral dos preços e passaram a cobrar o que lhes convinha. Do outro, o Presidente conclamou os consumidores para reagirem. O Brasil atendeu a seu chamado e “fiscais do Sarney” pipocaram em todos os cantos. Uma massa nacional fora galvanizada para defender o Plano, vigiar os preços, e denunciar os aumentos para a Superintendência Nacional de Abastecimento.

Fiscal d

Os “bottons” que marcaram a Geração de ’86. Sarney convocou o povo para fiscalizar “o dragão da inflação”. Mas quem fiscalizou o Sarney?

A cruzada pelo Cruzado era movida a euforia, mas seu desfecho só poderia ser melancólico. Sua premissa, de que Sarney era um aliado do povo na luta contra os aproveitadores, não poderia ser mais ilusória. Mas aquela geração não se iludiu por acaso; o melhor ator da política estava desempenhando o mais envolvente papel das mitologias. E o roteiro era irresistível: cansados de apanhar dos fiscais do Sarney, os magnatas da produção resolveram esvaziar as prateleiras dos supermercados. Fingiam que, se não pudessem vender pelo preço ideal, preferiam não vender. Era a deixa pro Governo ir para o alto e avante; no caso, para arrastar as mercadorias para os mercados. A operação cinematográfica incluía até mesmo o confisco policial de gado. A mídia pintou os eventos em Technicolor, e Funaro, elevado à divindade, foi às propagandas eleitorais do PMDB distribuir seu esplendor. Ulysses transformara um ignoto empresário da indústria de brinquedos em Ministro; o Ministro transformou em panteão olímpico.

Plano Cruzado apoio popular

O Plano Cruzado deu a José Sarney uma popularidade inacreditável: o Brasil vivia um sonho

Do outro lado, Brizola estava impedido de ir à TV pedir votos para seus candidatos. A Aliança Democrática aprovara uma lei casuística proibindo governadores de aparecer no horário eleitoral. Sem a apaixonante oratória do gaúcho indômito para fervilhar sua propaganda televisiva, o PDT do Rio teve de se contentar com a tépida peroração do professor Darcy Ribeiro. E o que lhe sobrava em inteligência e discernimento faltava-lhe  em carisma. Se isso fosse pouco, a esquerda fluminense tinha quatro candidatos disputando votos: além de Darcy, havia Fernando Gabeira pelo PT, Aarão Steinbruch pelo PaSART, e Sinval Palmeira pelo PSB. Os grupos comunistas, PCB, PCdoB e MR-8 fizeram campanha para o direitista Moreira Franco com a maior naturalidade. Sua coligação reunia uma dúzia de partidos, empunhando o Plano Cruzado e surfando uma doentia ofensiva midiática contra Brizola.

O eleitorado do Rio, como todo eleitorado do País, foi às urnas no dia 15 de novembro de 1986 sob efeito de uma feitiçaria econômica. Moreira Franco se elegeu governador fluminense com uma quantidade ínfima de votos à frente da soma das esquerdas; Darcy foi o socialista mais votado no País. Mas não teve jeito, nem pra ele e muito menos para os demais. O PMDB elegeu 22 governadores, de um total de 23. O vigésimo-terceiro também era da Aliança Democrática: Antônio Carlos Valadares, do PFL sergipano. Ulysses conquistou o décimo mandato deputado federal com inéditos 590.873 votos, atrás apenas de Lula da Silva, do PT. O PMDB elegeu uma confortável maioria dos senadores e deputados, e, portanto, da Assembléia Nacional Constituinte. O PFL ficou com um distante segundo lugar. O Plano Cruzado arrastou as fichas do cassino eleitoral.

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Durante a Ditadura de 1964, José Sarney e Ulysses Guimarães estiveram em lados opostos. Em 1985 se uniram na Aliança Democrática. Em 1986 organizaram uma estratégia eleitoral em cima do Plano Cruzado. De Ulysses, Sarney recebeu sustentação. De Sarney, Ulysses recebeu um Plano que lhe deu 590 mil votos e elegeu 22 governadores peemedebistas.

Mas o governo não esperou sequer a divulgação dos resultados para abrir a cortina. No minuto em que as urnas fecharam, o ministro Funaro anunciou a liberação dos preços e em questão de dias eles escaparam completamente não só de seu controle–da qual abdicara–mas de suas piores previsões. O País sofreria, com juros (quase literalmente), a vingança dos preços. Tudo que não foi aumentado ao longo do ano aumentou, quase cumulativamente, a partir de 16/11. Era o começo de um novo ciclo inflacionário voraz e pantagruélico. Dessa vez, porém, o brasileiro enfrentaria a (hiper)inflação sem fé em políticos e economistas, sem fé no futuro ou mesmo em si. A antecipação do pior sói incrementar a piora.

O Plano Cruzado fez mais que inchar o poder do PMDB. Inchou também aquele sentimento determinista de que o País não tem como ser feliz. A realidade do Cruzado desabou sobre o espírito nacional como a morte de Tancredo, tão inesperado quanto desolador. No entanto, a oportunidade Cruzado perdeu era real e promissora; o opróbrio que o Cruzado sofreu foi intencional e diabólico. Por contraste, o horizonte que Tancredo patenteou era folclórico e duvidoso; o seu sofrimento foi trágico e indesejado. Em 1985, uma fatalidade quase inevitável foi fantasiada de martírio nacional, e uma mitologia oportunista obscureceu os fatos a respeito de um estrategista solerte. Em 1986, uma voracidade quase insaciável fantasiou a realidade nacional, e uma demagogia oportunista obscureceu os fatos a respeito de uma economia incerta. Em 1985 a nossa fábula de País condenado ao fracasso foi alimentada pela falsificação de um Passado. Em 1986, pela falsificação do Presente. Ironicamente, a lição que fica da “Aliança Democrática” Tancredo-Sarney é essa: quanto mais o brasileiro for ludibriado, mais fácil será ludibriá-lo. Ou, contrariando o verso de música do The Who: “We shall be fooled again.” Nós haveremos de ser enganados de ser enganados de novo, e por um motivo: nós sempre nos enganamos a respeito da natureza de nossos enganos.

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