Para Dar ao Sol seu Lugar ao Sol: Galileu Colide com o Obscurantismo

Em 26 de fevereiro de 1616 a Igreja Católica Apostólica Romana julgou o cientista Galileu Galilei pela primeira vez. Mas ele não foi o único condenado. A própria Teoria Heliocêntrica do Universo foi declarada, judicialmente, uma heresia; leia-se, uma violação dos dogmas da Igreja. Em regimes teocráticas as heresias têm status de crime, para todos os efeitos. O Tribunal do Santo Ofício, presidido pelo Cardeal São Roberto Belarmino, proibiu Galileu de ensinar a Teoria Heliocêntrica, que o astrônomo polonês Nicolau Copérnico havia introduzido à ciência ocidental moderna. As suas obras, bem como as de Johannes Kepler e de outros heliocentristas, foram incluídas no Index Librorum Prohibitorum, o rol de livros proibidos que materializava a intenção da Igreja de monopolizar o conhecimento oficial. Galileu passaria o resto de sua vida tentando publicar seus papéis científicos numa linguagem ambígua o bastante para escapar nas brechas da sentença de São Belarmino. Ela exigia que Galileu “se abst(ivesse) completamente de ensinar ou defender essa doutrina e opinião ou discuti-la”, no caso, “que o Sol se mantém imóvel ao centro do Mundo que que a Terra se move.” A brecha não estava no escopo: ele não poderia “acreditar, ensinar ou defendê-la em qualquer forma, nem oralmente, nem por escrito.” Em outras palavras, para Galileu chegar a uma linguagem ambígua o bastante para a publicar suas conclusões ele precisaria da elasticidade de um ginasta e da malemolência de um prestidigitador.

Saint_Robert_Bellarmine

Cardeal São Roberto Belarmino (1542-1621), sacerdote jesuíta que condenou o heliocentrismo como heresia em 26 de fevereiro de 1616. Pintor anônimo, data incerta.

Polímatas como Galileu Galilei são versáteis por excelência, mas o sucesso de sua malemolência dependia menos da sua genialidade e mais da boa vontade do Sumo Pontífice. Durante algum tempo, muito da primeira assegurou um pouco da segunda, pois Galileu obteve de São Roberto Belarmino uma certa margem de manobra que manteve as suas obras seguintes fora do Index Librorum Prohibitorum. Mas limitar-se a ela manteria-o igualmente fora do compêndio de maiores gênios do Ocidente. Felizmente, Galileu não o fez: em 1632 publicou sua magnum opus Diálogo Sobre os Dois Principais Sistemas de Mundo. E a boa vontade do Sumo Pontífice se esgotou.

Não que a boa vontade fosse muita; mas em 1632 o Pontífice era Urbano VIII–não o Paulo V que encomendara a sentença inquisitória de Belarmino, nem seu sucessor Gregório XV, cujo pontificado de dois anos foi ainda mais obscurantista que o seu. Galileu chegou a cumprimentar Urbano por ocasião de sua posse frente à Santa Sé; parecia nutrir esperanças de ser suficientemente ginasta e prestidigitador para levar seus estudos às últimas consequências do método científico. A Igreja os levou às últimas consequências da misericórdia. Em 22 de junho de 1633, após meses de intimidantes interrogatórios–e ameaças de tortura–ele foi condenado à morte caso não abjurasse, renunciasse e amaldiçoasse suas teses. Galileu se retratou, e a Igreja, misericordiosa, comutou a sua pena para prisão perpétua. Em todo caso a todos os seu trabalhos foram colocados no Index; não só os que realizara, mas quaisquer que viesse realizar. O Index preventivo asseverava de que daquele herege não sairia boa coisa, jamais.

Galileu Galilei desfrutou da generosidade papal ao cumprir a prisão perpétua em caráter domiciliar; coube a ele destino melhor que hereges como Giordano Bruno, que dezesseis anos antes fora queimado na fogueira por seu heliocentrismo. Entre 1616 e 1632 Galileo empenhou à ciência a sobrevida que faltou a Bruno. Bruno teve oportunidades de abjurar, renunciar, e amaldiçoar suas teses, mas não o fez. Coube a esses homens papéis distintos na História: Bruno, um filósofo, morreu para que a Teoria Heliocêntrica tivesse uma vitória num gesto forte para o mundo inteiro ver. Foi uma vitória de consolação para a tragédia cultural contida em sua inconsolável tragédia pessoal. A coragem de Bruno o fez inspiração para todos os livre pensadores como Galileu que, ousando remar contra a maré, garantiram à posteridade a centelha de luz em torno da qual orbitam os mundos da pesquisa autônoma. Ou nas palavras de Isaac Newton, os ombros de gigantes em que subimos para enxergar mais longe. Giordano Bruno era um filósofo; Galileu Galilei, filósofo e cientista. Em 1600 o primeiro preferiu a morte que viver sem filosofar em voz alta. Em 1616 o segundo preteriu a morte para pesquisar em voz baixa. A sentença que desabou sobre a Teoria Heliocêntrica há quatrocentos anos forçou-o a testá-la nos subterrâneos da ciência; foi uma opção mais prosaica que a de Bruno, mas o que lhe custou em poesia valeu ao mundo em conhecimento. Ele postergou por dezesseis anos seu confronto final com a Igreja, eles legaram ao mundo uma obra astronômica sem igual, a qual a Igreja legou sua censura.

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Galileu Enfrenta a Inquisição Romana, quadro de Cristiano Banti, de 1857. Observem a postura desafiadora de Galileu Galilei, que camufla a provável realidade de um réu valente no espírito mas alquebrado pela tortura psicológica.

As obras de Galileu Galilei e Nicolau Copérnico só saíram do Index em 1835. Isso não significou uma aceitação clerical do heliocentrismo, menos ainda retratação pelas injustiças impostas a Galileu. Elas só viriam, em caráter oficial, em 1992. A Igreja Católica conhece apenas 24 anos, dos últimos seiscentos, do valor de Galileu. E não porque–conforme sugeriu um humorista–sofria de um acesso de preciosismo no empenho de conferir os resultados de seus estudos com uma calma ímpar. Foram seiscentos anos em que a Igreja perdeu tanto poder que precisou tomar medidas drásticas para prolongar sua relevância. Inaugurou uma doutrina social em 1891, sofisticou-a em 1931, e entre 1958 e 1965 atravessou um salto quântico em que fez de tudo, desde “perdoar” os judeus, instituir liturgias no vernáculo, delegar funções aos leigos, e permitir comunidades eclesiais de base. Hoje temos Pastorais da Terra, da Juventude, dos Negros, temos até padres marxistas, não porque suas ciências evoluíram, mas porque seu poder secular involuiu. Até hoje a Santa Sé palpita a respeito de conclusões científicas que desagradam seus dogmas e desafiam o obscurantismo de suas doutrinas. O mundo não pode esperar 376 anos até o Papa aceitar as células-tronco. A agenda teocrática tem que ser combatida inclusive pela dignidade das religiões. A separação de Igreja e Estado e a autonomia da pesquisa científica são a única linha de defesa da fé espiritual contra a sua própria impertinência.

Não se trata, portanto, de luta contra a religião, mas contra a mistificação. Ela se expressa inclusive no mito em que Galileu, ao se retratar de suas conclusões de que a Terra se move ao redor do Sol, teria resmungado, ao descer da cadeira dos réus: “Eppur si muove!” Traduzindo: “no entanto ela se move!”–quase uma pirraça de um filho travesso forçado a se desculpar ao pai, ainda que da boca pra fora. Essa fabricação pedestre serve como tentativa de dar a Galileu a poesia que Bruno fez por merecer; como diz a música d’ O Rappa: “A vitória de um homem às vezes se esconde num gesto forte que só ele pode ver.” Seria comovente, se não fosse óbvio que uma vitória de Galileu escondida num gesto forte que só ele poderia ter visto–ouvido, no caso–não poderia ter sido registrada. Portanto, se alguém tivesse ouvido “Eppur si muove!”, seria testemunha do descumprimento do réu dos termos da comutação. E Galileu iria para a fogueira.

É importante frisar que o pensamento científico sempre progride na proporção da autonomia gozada; cerceá-la não é prerrogativa da religião, mas de qualquer estreitamento do pensamento, como o contido em “Eppur si muove!” A era mais frutífera do pensamento humano talvez tenha sido à da Época de Ouro do Islã, expressão sugestiva que compreende boa parte do Califado Abássida (e parte do Califado Omíada), em que polímatas como Galileu Galilei abundavam nos pólos acadêmicos onde a discussão, reflexão e pesquisa eram livres e integradas. Os estudiosos eram incondicionalmente subvencionados pelo Estado; seus compromissos eram com seus próprios discernimentos. Da mesma forma, outro período que produziu numerosos polímatas, esses mestres completos em artes e ciências diversas, foi a Grécia Clássica, em que os pensadores eram sustentados pela contrapartida de pensar–livremente. Estadistas como Sólon tiveram o mesmo desprendimento que os califas abássidas, assim como no Renascentismo a generosidade dos mecenas permitiu Leonardos Da Vincis e Filippos Brunelleschis–a ponto da expressão “homem renascentista” ter se tornado sinônimo de polímata. O advento do Iluminismo reabriu algumas portas; o mundo ainda conheceria gênios da versatilidade de Johann Wolfgang von Goethe, mas se hoje, em boa parte do mundo, o Estado libertou-se da Igreja (conquanto relativamente), em parte alguma ele se libertou do Mercado, e o que vemos hoje são as nossas universidades bem mais desintegradas, bem menos interdisciplinares–galacticamente distantes da Universidade de Bagdá ou da Academia de Platão–e, sobretudo, criminosamente orientadas para o lucro, cada vez menos indulgentes para qualquer tipo de trabalho que não enriqueça direta e materialmente as firmas do poder.

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