O Dia em que Nikita Khrushchev Descortinou Josef Stalin

O dia: 25 de fevereiro de 1956.

O local: O Kremlin de Moscou, na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

A ocasião: A plenária de encerramento do Vigésimo Congresso do Partido Comunista da União Soviética.

O secretário-geral do PCUS Nikita Sergeyevich Khrushchev assume a palavra. Falou por quatros horas–ao fim das quais o movimento comunista jamais seria o mesmo.

Aquele era o primeiro congresso do partido desde a morte de Josef Stalin três anos antes. Era o décimo-quinto desde que a Revolução de Fevereiro de 1917 destruíra o tsarismo russo, e a décima-quarta desde que a Revolução de Outubro de 1917 colocara os bolcheviques de Lenin no poder. Entre 1917 e 1926 o congresso foi realizado anualmente; isso significa que entre a queda do Tsar Nicolau II e a morte de Vladimir Lenin a instância suprema decisória do partido se reuniu mais vezes que nas três décadas seguintes. A princípio, a grande singularidade do vigésimo parecia ser o relativamente breve lapso de quatro anos desde o décimo-novo, que por sua vez levara mais de treze anos para suceder o décimo-oitavo.

Entre um Congresso e outro o PC era dirigido pelo seu Comitê Central, sob o comando político de seu Politburo, sobre o qual o secretário-geral da agremiação exercia uma supremacia de facto. O aparelhamento do estado soviético pelo PCUS–o único partido legal–fazia do secretário-geral o efetivo governante do país. Desse modo, o georgiano Josef Stalin, primeiro detentor do cargo, fora virtual líder da União Soviética desde o falecimento de Lenin mesmo sem possuir cargo oficial no governo. Somente em 1940 ele assumira a posição decorativa de Primeiro-Ministro, na qual foi sucedido por Georgy Malenkov por ocasião de sua morte. Por contraste, seu sucessor como secretário-geral foi o herói de guerra Nikita Khrushchev. Nessa contradição um choque de prerrogativas decidiu o futuro do país e dos adeptos do comunismo ao redor do planeta. A autoridade formal de Malenkov foi conservada por Khrushchev enquanto lhe foi útil para limar a eminência parda da KGB–o soturno Lavrentiy Beria. Com a eliminação do grande       da NKVD, o aparato policial da URSS não seria ameaça para a supremacia burocrática de Khruschev. A partir de então foi uma questão de quebrar a bucha de canhão ao meio: o Politburo passou a sabotar todas as decisões do Premier Malenkov até, enfim, substituí-lo pelo subserviente Nikolay Bulganin. Faltava só desmontar os focos de resistência dos apaniguados do premier apeado, e no XX Congresso Khrushchev arquitetou a oportunidade perfeita.

Beria Bulganin Khrushchev Malenkov

Em sentido horário, começando na esquerda ao alto: Lavrentiy Beria (1899-1953); Nikolay Bulganin (1895-1975); Georgy Malenkov (1902-1988)

Nas “táticas de salame” na burocracia soviética, Lavrentiy Beria foi assassinado pouco após Stalin falecer; nessa conspiração Bulganin apoiou Malenkov e Khrushchev, e quando houve disputa entre os dois, apoiou o último; mesmo assim, finda a ameaça de Malenkov, Khrushchev apeou Bulganin

Qualquer objeto de culto à personalidade tem seu legado reivindicado por um ou mais pretenso sucessor após a morte, e com Stalin, um ícone sem par nesse aspecto, não foi diferente. Khrushchev não queria convulsionar o PCUS numa briga de apóstolos do grande líder pelo controle do país. Ao mesmo tempo, estava farto de sustentar curriolas burocráticas que viviam penduradas no poder desde que os Grandes Expurgos de 1934-1940 erradicaram os quadros orgânicos do partido por ignotos escorados exclusivamente pela vocação de bajular os poderosos. O encerramento do XX Congresso estava agendado para o dia 24 de fevereiro, mas os delegados foram convocados de antepenúltima hora para uma plenária final do dia seguinte, em que Khrushchev lançou sua bomba. Chamava-se “Sobre o Culto à Personalidade e suas Consquências” e consistiu de um breve resumo das atrocidades cometidas por Josef Stalin contra a URSS, o partido bolchevique e a ideologia leninista. Citou trechos da obra de Marx e Lenin denunciando o “culto ao indivíduo”. Leu o Testamento de Lenin em que o líder revolucionário mostrou seu desprezo pelo caráter de Stalin. Enumerou as violações de Stalin contra o princípio da “liderança coletiva”. Denunciou a transformação da luta ideológica contra o trotskyismo em pretexto para exterminar supostos rivais. Expôs os métodos diabólicos pelos quais 848 delegados aos XVI Congresso do partido foram mortos e outros 1.108 foram declarados “contrarrevolucionários”–entre os 1.966 presentes. Desmistificou o heroísmo atribuído a Stalin na Segunda Guerra Mundial. Esmiuçou as políticas de transferência populacional que resultaram na deportação de mais de seis milhões de pessoas de diversas nacionalidades, provocando a morte de quase 1.600.000. Descortinou a natureza da “Grande Fome” (Holodomor) que ceifou entre 3.000.000 e 6.000.000 ucranianos. Repudiou até mesmo a substituição do “Prêmio Lenin” pelo “Prêmio Stalin”. Em suma, acusou Stalin de tudo, menos de ser leninista.

Khrushchev e Stalin

À esquerda, Nikita Khrushchev (1894-1971). À direita, Josef Stalin (1878-1953). Foto de 1936.

Em 1937 Nikita Khrushchev (ou Kruchov) indicado comandante da Ucrânia por Josef (ou Iosip) Stalin, onde implementou os expurgos do patrão.

As acusações de Khruschev eram tão graves quanto embasadas e os presentes ficaram visivelmente consternados. Há muitos relatos de delegados e observadores que chegaram a passar mal durante o discurso e tiveram de ser socorridos. Nos dias e semanas seguintes alguns dos presentes sofreram ataques cardíacos; uns cometeram suicídio. Nada que se comparasse, contudo, com a hecatombe que desabaria sobre as cabeças de marxistas-leninistas ao redor do mundo. O pronunciamento acabou ganhando o epíteto “Discurso Secreto” pelo caráter fechado da plenária e pela proibição de registros estenográficos, mas o Comitê Central do PCUS logo tratou de distribuir cópias para discussão a todas as células do partido. Embora a publicação no russo original só fosse vir em 1989, no Governo Gorbachev, o discurso-não-tão-secreto chegou à opinião pública por veredas tortuosas porém certeiras. Ainda no começo de março a Reuters distribuiu a notícia do pronunciamento e resumiu o seu teor. O New York Times, o Le Monde e o Observer publicaram o discurso na íntegra nas primeiras semanas de junho. Os Partidos Comunistas por todo mundo reagiram com o áspero ceticismo próprio dos que passam a vida inteira sendo difamados, caluniados, perseguidos e mortos pelos comendadores do imperialismo ocidental. Mas os vários delegados internacionais voltaram a seus países confirmando a autenticidade do documento a seus correligionários escandalizados; a testemunha do Partido Comunista do Brasil no XX Congresso fora o ideólogo marxista Jacob Gorender e coube a ele desiludir seus camaradas. Um misto de horror e melancolia marcou o encerramento daqueles longos anos em que eles encaravam denúncias de crimes de Stalin como calúnias panfletárias da hipocrisia anticomunista.

O bloco comunista sofreu o impacto do Discurso “Secreto” de acordo com a natureza de cada regime. Os partidos e regimes marxistas-leninistas da Polônia, da Hungria, da Tchecoslováquia, da Alemanha Oriental, da Bulgária, da Romênia, e da Mongólia, aceitaram os relatos automaticamente–eles eram pouco mais que extensões locais do PCUS e títeres da URSS, respectivamente. O regime stalinista de Enver Hoxha na Albânia comunista–que tomara o poder com a retirada das tropas nazistas sem depender da Exército Vermelho–não deu o braço a torcer. Hoxha rompeu com o PCUS e a Albânia logo rompeu relações diplomáticas com a URSS. A China de Mao Tsé-tung tampouco reconheceu a veracidade das denúncias. Acrescendo uma defesa de Stalin aos vários atritos geopolíticos e militares que vinha cultivando com a URSS, a China maoísta iniciou um afastamento gradual e amargo com o ex-aliado. Embora a ruptura de laços diplomáticos ainda fosse levar alguns anos, o Governo Mao não tardou em ensaiar um bloco com a Albânia de Hoxha, encorajando cismas no seio de cada PC no globo terrestre. As linhas soviética e maoísta (ou maoísta-hoxhaísta) inauguraram um antagonismo que nunca mais superariam plenamente. No PCB, essa opção entre lealdade à URSS e lealdade a Stalin levou o Comitê Central a afastar os defensores do rompimento com Moscou em 1958, restando-lhes somente a expectativa irreal de capturar os órgãos decisórios–e reverter a linha partidária–no congresso marcado para 1960. Mas comitês central nenhum sofreu derrota em Congresso de PC, e os stalinistas se retiraram do partido. Aproveitando a decisão do PCB de mudar seu nome de PC do Brasil para PC Brasileiro, a dissidência stalinista se apossou da denominação original para conjurar a ficção de serem a verdadeira continuidade da entidade. Tornou-se assim, o primeiro PC do mundo, dentre os estranhos ao poder governamental, a romper com a União Soviética em nome da exaltação a Stalin.

A “Des-estalinização” apresentou características curiosas. O discurso de Khrushchev deplorou a voracidade das perseguições anti-trotskyistas por paranoia e oportunismo, mas não negou a ameaça ao leninismo que o PCUS enxergava no trotskyismo. Várias figuras satanizadas pela ditadura stalinista foram reabilitadas, mas quase nenhuma era trotskyista. O Discurso Secreto teve o cuidado de valorizar os avanços econômicos da formidável industrialização que o país vivera, mas atribuía a responsabilidade e salientava a contribuição de inúmeros protagonistas eliminados pelo regime. A redenção das milhares de vítimas dos grandes expurgos partidários contemplou tantos adeptos de Bukharin que a oposição bukharinista à URSS acabou perdendo urgência. Mas talvez a repercussão mais subestimada tenha se dado na dimensão . Os stalinistas há 60 anos embaralham relativizações insensíveis, tergiversações cínicas e negativas descaradas para defender seu grande líder. Chamam quaisquer anti-stalinista da Esquerda de “revisionista” com indisfarçável desprezo. O rótulo havia estreado na terminologia bolchevique como eufemismo para generalizar os desafetos; com o tempo virou hipérbole para criminalizar os dissonantes. A partir de 25 de fevereiro de 1956, essa criminalização pautou um sem-número de surtos acrimoniosos de sectarismo, em que grupos idênticos em doutrina (e até em método) se polarizaram em torno de irreconciliáveis narrativas, bíblicas de tão intransigentes.

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