As Lutas Integradas de Clara Fraser

Hoje a perda de uma figura insubstituível da Esquerda completa uma melancólica maioridade. Morreu no dia 24 de fevereiro de 1998, na cidade de Seattle, nos EUA, após anos de luta contra a enfisema, a incansável ativista Clara Goodman Fraser. Faltavam-lhe três semanas para completar 75 anos de vida e 59 de militância socialista. Clara era uma jovem de 16 anos quando filiou-se ao Socialist Party of America (“Partido Socialista da América”), ou SPA, ainda numa escola de segunda grau em sua cidade natal de Los Angeles. No entanto, podemos dizer que a sua trajetória de luta já se anunciava desde o berço. Seu pai, Samuel Goodman, era líder anarquista e organizador irrepreensível da luta sindical dos caminhoneiros. Sua mãe, Emma Goodman, de orientação socialista-democrática (no sentido marxista), organizava o Sindicato Internacional de Trabalhadores da Indústria do Vestuário Feminino na região da Costa Leste. Samuel era um judeu da Lituânia–então parte do Império Russo–que emigrara para os EUA para escapar dos pogroms antissemitas do governo tsarista. Emma era uma judia da Rússia ocidental que emigrara para os EUA para escapar dos pogroms antissemitas do governo tsarista. Formavam um casal típico da comunidade judaica dos Estados Unidos, fugitivos do ódio sanguinário que o Império Russo nutria pelos judeus, e enlaçados pelo amor e pelo compromisso revolucionário tão onipresente na comunidade yidish da época.

Clara Goodman passara a primeira metade dos anos quarenta como uma diligente integrante do SPA, mas após completar a graduação em Literatura e Educação na University of California começou a se aproximar do trotskyismo. Em 1945, quando marxistas nos EUA e no mundo entravam na órbita do(s) Partido(s) Comunista(s), encantados com as vitórias extraordinárias do Exército Vermelho na guerra contra o nazi-fascismo, Clara aderiu ao Socialist Workers’ Party (“Partido Socialista dos Trabalhadores”) e abraçou suas posições anti-stalinistas. O Socialist Workers’ Party, ou SWP, era a principal organização trotskyista dos Estados Unidos, e havia sido organizada por Albert Goldman, Max Shachtman, Maurice Spector, e James Cannon na virada de 1937 para 1938. Clara ficou encarregada de construir um diretório para o SWP em Seattle, onde foi morar em 1946, lá ficando até o último suspiro 52 anos depois. Nesse meio tempo firmou-se como a militante socialista mais marcante da cidade.

Um antológico episódio nesse sentido se deu ainda em 1948, quando 15.000 trabalhadores da fábrica de aviões da Boeing entraram em greve. Clara, que trabalhava como eletricista, reagiu a uma injunção proibindo os piquetes dos trabalhadores com sua característica criatividade: reuniu as mulheres do sindicato em uma brigada “armada” de carrinhos de bebê. A brigada se tornou um verdeiro “piquete infanto-maternal” que arremessou os manda-chuvas da Boeing num estado de torpor e Clara na Lista Mestra de Subversivos do FBI. Clara perdeu o emprego, foi marcada como trabalhadora inaceitável no rol da Boeing, e passou uma década sob a vigília macabra do FBI, mas ganhou uma reputação legendária no movimento trabalhista e trouxe ao SWP incontáveis novos militantes.

Mas Clara não tinha a menor intenção em limitar-se ao ativismo sindical. Havia tempos que ela formara uma consciência feminista, mas no começo dos anos 50, por volta da época em que se casou com Richard Fraser, embarcou na causa de corpo e alma, a ponto de se tornar a maior referência feminista da SWP. Foi uma questão de tempo até que se tornasse a grande ideóloga feminista do Partido. Foi uma questão de tempo um pouco maior até se tornar uma referência nacional da causa, para além não só do trotskyismo como do socialismo de modo geral. Uma observação cuidadosa de sua prolífica produção teórica sobre o assunto mostra, entretanto, uma visão do feminismo bem distinta da ortodoxa trotskyista. Ela repelia a visão prevalente na qual a luta das mulheres cumpria um papel não mais que subsidiário na luta de classes. Ao contrário, a própria natureza da luta de classes se sofisticava de acordo com as demandas do patriarcalismo machista. Se por um lado a originalidade de suas formulações atraiu muitas feministas radicais para o marxismo revolucionário, por outro tornava-as de difícil digestão para o alto clero do partido. Mas a sempre audaz e continuamente ideológica Clara Goodman Fraser nunca foi mulher de permitir que obrigações partidárias comprometessem suas análises dialéticas–provando isso pelo resto da vida.

E não só em seu protagonismo no movimento feminista mas também no apoio ao movimento negro. A vocação racista da sociedade americana indicava que havia muito mais que luta de classes–ou luta de sexos–na História do país. Tese essa que seu marido Richard Fraser pregou aos quatro ventos do trotskyismo. Richard era um pesquisador      da História dos negros nos EUA. Correspondia sua dedicação inesgotável a um engajamento prático nas lutas contra o racismo. Percorria o país convencendo sindicatos a fazer greves contra a segregação racial, mobilizou os recursos da SWP para amparar os boicotes públicos do movimento negro, abriu as portas da imprensa marxista para os defensores da união dos afro-americanos. E em 1988, aos 75 anos, quando só lhe restavam vinte e dois dias de vida, mobilizou um protesto que levou ao desmantelamento da Ku Klux Klan em Seattle. Clara foi a porta-voz mais enfática de suas teses, pelas quais concluiu que o modus operandi do trotkyismo frente ao movimento negro era bem mais proveitosa para fins de recrutamento do que assimilação das ideias em marcha. Ela via a “revolução negra” como um processo ao qual a revolução socialista devia se integrar e não direcionar. Foi o marco anunciativo de sua tese de “integracionismo revolucionário”, que a faria uma das marxistas brancas mais respeitadas pelo movimento negro americano. Se Richard explicou a interdependência das causas afro e socialistas no livro “Integração Revolucionária: Uma Análise Marxista da Libertação Afro-Americana”, Clara a pôs em prática em suas defesas enfáticas das propostas nascidas no movimento negro que colidiam com o purismo cético dos ativistas clássicos. E, lógico, na sua inescapável participação em todos os atos públicos locais contra o racismo.

O “integracionismo revolucionário” pôs os Frasers em atrito ininterrupto com a direção do SWP. Eles participaram, em 1961, da criação da “Tendência Revolucionária”, numa tentativa de disputar os rumos da agremiação. Quando os principais integrantes do grupo foram expulsos do SWP–em manobra referendada pela Quarta Internacional trotskyista em 1965–os Frasers responderam com o livro Crise e Liderança, obra seminal do trotskyismo americano. À frente de uma corrente de codinome “Kirk-Kaye”, passaram a organizar lutas de massa por fora do partido. Clara encabeçava manifestações públicas que desafiavam ostensivamente a linha do SWP para a causa feminista (considerada artificial), para a causa afro-americana (considerada condescendente), para a causa contra a Guerra do Vietnã (considerada inexistente) e para a causa LGBT (inexistente). O ponto de ruptura veio em 1966, quando Clara liderou a formação de um novo partido dissidente, composto pelos “revolucionários integracionistas”. Com o nome de Freedom Socialist Party (“Partido Socialista da Liberdade”), a nova agremiação propôs a formação de uma frente unificada do feminismo radical, realizando o feito ainda em 1967. Clara Fraser e sua aliada Gloria Martin fizeram do novo grupo, chamado Radical Women (“Mulheres Radicais”) a principal força de disseminação de consciência de classe no movimento feminista. O livro Revolution, She Wrote de Clara delineou uma nova orientação para o marxismo feminista e precipitou o crescimento da nova frente.

Tanto o Freedom Socialist Party (ou FSP) quanto as Radical Women seguem firmes e fortes até os dias de hoje. Foi Clara Fraser, como líder do FSP, que em 1974 iniciou uma batalha judicial contra a empresa pública de iluminação Seattle City Light. Clara foi demitida por uma iniciativa contra o assédio sexual e o favoritismo machista na companhia; após sete anos de luta ela conseguiu pôr os patrões de joelhos e ainda impôs o reconhecimento de seu “Comitê de Empregados por Direitos Iguais na City Light”. Seu êxito fez com que comitês similares brotassem por todo a cidade de Seattle, e também em outras cidades no estado de Washington. Foram anos de muito sacrifício para o FSP, mas que fizeram de Clara uma celebridade nacional e uma das vozes mais reconhecidas da esquerda feminista. Ao longo dos anos 80 produziu uma quantidade extraordinária de artigos que encontraram de costa a costa um público cativo–e combativo. Foi também época de construção de uma editora marxista chamada Red Letter Press, articulada por Clara, subsidiada pelo FSP e dotada de um catálogo admirável de livros de impacto. O irresistível apelo dessas obras foi o combustível do FSP para  formação, já na década de 1990, da “Frente Unida Contra o Fascismo” que mantém-se na vanguarda do combate ao racismo, ao neo-nazismo, ao antissemitismo e à homofobia do noroeste americano. Com o engajamento visionário de Clara Goodman Fraser, o FSP amealhou uma influência incalculavelmente maior do que a sua base partidária. A morte dessa revolucionária polivalente nos privou de uma referência singular nas lutas sociais. Mas o seu legado permanece mobilizando guerreiros ao redor da Esquerda americana e expandindo horizontes de marxistas do mundo inteiro.

Clara Fraser

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s