REPARA O FILME: “O Último Rei da Escócia” e Uganda Compreendida (PARTE I)

A partir de hoje o REPARA O MUNDO discutirá como obras do cinema e a realidade histórica se relacionam. Nesse segmento–chamado “Repara o Filme”–o blog avaliará o impacto de certos filmes na nossa compreensão da Humanidade, e começaremos pelo primeiro de quatro artigos sobre “O Último Rei da Escócia”. Trata-se de uma obra de ficção dirigida por Kevin Macdonald e estrelada por James McAvoy como o médico escocês Nicholas Garrigan. O filme se passa na Uganda dos anos 70, onde o recém-formado Garrigan resolve morar, e fala de seu relacionamento com o presidente Idi Amin Dada, como médico, amigo e confidente. É uma adaptação do romance homônimo de Giles Foden; mas que também se propõe a retratar tanto Uganda quanto o ditador Idi Amin (magistralmente encarnado por Forest Whitaker) com realismo.

Os quatro artigos do “Repara o Filme” tratarão:

(I) de como o filme se relaciona com o estudo dos adversários do regime de Idi Amin Dada;

(II) de como o filme se relaciona com o estudo da História de Uganda;

(III) de como o filme se relaciona com o estudo específico de Idi Amin e seu governo;

(IV) do filme como realização artística, dos seus defeitos, dos seus méritos–e se eles ajudam ou atrapalham a tomada de consciência.

Começaremos com os adversários de Idi Amin; primeiro porque, não sendo eles o foco do filme, não exigem que questões específicas ao quarto artigo sejam antecipadas. E ao mesmo tempo introduzem questões que só ficarão complexas nos próximos dois artigos. Mas o principal motivo é para marcar os 39 anos do assassinato do ativista ugandense Janani Luwum, legítimo herói de seu povo e destemido defensor dos Direitos Humanos. Trabalhava como arcebispo anglicano da África Oriental mas sua realização estava na luta ugandense contra as arbitrariedades do governo. Sua causa que envolvia riscos que se concretizaram no dia cinco de fevereiro de 1977, quando soldados de Idi Amin invadiram sua casa e levaram-no ao cárcere. Ficou incomunicável por onze dias até ser arrastado para uma farsa judicial pública aberta ao público e presidida pelo próprio Amin. Ele e outros seis bispos foram condenados por tráfico de armas para abastecer grupos revolucionárias, mas Luwum–que estava proibido de falar–negou todas acusações balançando a cabeça. Sem efeito, evidentemente, pois os sete foram sumariamente julgados e condenados. Foi quando Idi Amin gritou aos soldados na platéia: “O que fazer com esses traidores?” Eles responderam: “Mate-os agora!” Luwum foi separado dos demais e apareceu morto no dia seguinte, “vítima de um acidente de carro”, na versão do governo. “Acidente” que ceifou, inacreditavelmente, outras vidas: Charles Oboth Ofumbi e Erinaya Oryema, ministros de Estado que Amin recentemente demitira e condenara num julgamento idêntico ao de Luwum–e naquele mesmo dia.

Janani Luwum

Os ugandenses elegeram Janani Luwum (1922-1977) um dos maiores nomes do país. Ele é lembrado por ativistas dos Direitos Humanos ao redor do continente africano.

A morte de Luwum foi quase tão emblemática quanto a vida. Foi um assassinato brutal, clandestina, com alguns detalhes que ainda parecem um tanto nebulosos (há quem diga que Amin o matou pessoalmente) Nesse aspecto foi uma execução bem representativa das milhares sofridas por ” inimigos de Estado”. Igualmente representativos foram o julgamento fraudulento antecendete e o acobertamento fraudulento subsequente. A discrepância entre a versão oficial do governo e a realidade do crime também foi tipicamente absurda. Luwum e os ex-ministros Erinayo Oryema e Oboth Ofumbi teriam batido com o carro no qual soldados os levavam (para onde?) na tentativa de assumir o volante. Os soldados teriam sofrido apenas leves escoriações. Os cadáveres foram entregues pelo governo em caixões selados, mas o de Luwum foi aberto durante o enterro, revelando três tiros no peito e um na boca. Oryema também sofrera três tiros no peito, bem como Ofumbi, que ainda levara um na perna.

Obothi Ofumbi e Erinayo Oyema serviram a Idi Amin com lealdade, mas foram acusados de armar os dissidentes. Morreram porque “sabiam demais” e poderiam revelar as atrocidades do regime.

“O Último Rei da Escócia” não pode ser cobrado por não incluir o heroísmo de Luwum–pelo menos não dentro de sua proposta. A história é vista pelos olhos de Garrigan, que passa a maior parte do tempo encastelado no poder e desfrutando da amizade do ditador. Deslumbrado pelas benesses do poder–e sempre cativado pelo irresistível carisma de Idi Amino–Garrigan enxerga o mundo à sua conveniência. Ele não poderia ver Luwum senão como o traidor terrorista que Amin descreve. Ele abraça as versões de Amin junto com as prebendas, sem muito escrúpulo. Ele recebe numerosos avisos sobre a natureza sanguinária do regime com conveniente ceticismo. Seria um tanto difícil expor a verdade sobre Luwum nesse enredo, a menos que um dos alertas a Garrigan pudesse entrassem nos detalhes de sua vida e morte. A ausência de Luwum não é grave–de qualquer modo ele merece seu próprio filme.

Espaço mesmo havia para Milton Obote, líder da independência e primeiro governante de Uganda. Não para mostrá-lo, porque o filme começa com Obote já deposto por Amin (e termina antes de seu regresso ao país). Mas os personagens do filme poderiam ter feito referências mais detalhadas do homem que figura entre os mais importantes da História ugandense. De Idi Amin saem, é claro muitas referências a Obote, sempre negativas, o que faz justiça à realidade. Amin culpava Obote por tudo; a luta para destruí-lo era justificativa pra metade de seus desmandos. Se personagens sem vínculos com a ditadura tivessem situado Obote para o público, ele ficaria com uma noção melhor de como Amin enxergava a Uganda–e aquele momento histórico.

O Governo Obote vivia uma crise sem precedentes à época do golpe de Amin em janeiro de 1971. O Conservative Party mal vencera as eleições britânicas e já arquitetava a derrocada do seu regime socialista. No Sudão o novo ditador Gaafar Nimeiry vinha arrasando as forças revolucionárias apoiadas pelo seu governo. Pesavam sobre ele acusações severas–e convincentes–de corrupção. Em meio ao seu conflito com o Reino de Buganda (a maior província ugandense) ele decretara uma intervenção e suspendera a Constituição. Mas o que ouvimos de concreto no filme é um comentário da personagem Sarah Merrit a um Nicholas Garrigan impressionado com a efusão popular diante de Amin: “Não fique impressionado. Eles também vibravam assim com Milton Obote até ele começar a gerir o país como se fosse seu cofrinho particular.”

Apollo Milton Obote tornou-se Primeiro-Ministro de Uganda em 1962 e Presidente em 1966. Foi acolhido na Tanzânia de Julius Nyerere após o golpe de 1971. O “Movimento à Esquerda” de Obote e o ujamaa de Nyerere eram propostas de socialismo. Em 1979 Nyerere derrotou Amin e Obote regressou a Uganda.

Por fim, o que mais encaixaria no filme seria a Guerra Uganda-Tanzânia (1978-1979). Não como parte do enredo, mas nas explicações finais sobre a derrocada de Amin. A menção que fazem não dá ao espectador a noção do que esse conflito representou. Que não haja dúvida: o governo tanzaniano de Julius Nyerere foi o verdadeiro responsável pela queda de Idi Amin Dada. De uma certa forma, Amin estava levando sua rivalidade com Nyerere às últimas consequências com a agressão à Tanzânia. E perdeu. As relações entre o anticomunista Amin e o afro-socialista Nyerere–que era amigo de Milton Obote–nunca foram muito boas. Mas isso o filme não ilustra, para prejuízo de um público que merece entender a complexa dinâmica entre os três líderes.

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