O “Populismo” na Narrativa Bolchevique

O último artigo do REPARA O MUNDO sobre o conceito de “populismo” se dedicou a explicar a origem do termo na esquerda russa no século XIX e a mostrar sua aplicação, como rótulo, a fenômenos bem diferentes. Para entender como essa expressão saiu do berço rumo à banalização, é necessário conhecer a crítica marxista aos “populistas” do Império Russo. Foi a partir dela que Vladimir Ilich Ulyanov–ou Lênin, como a História o conheceu–consolidou a conotação negativa do rótulo. E que comunistas do mundo inteiro levaram ao extremo.

O NARODNICHESTVO VISTO PELOS MARXISTAS

Ao longo das décadas de 1870, 1880 e 1890, as organizações populistas (narodniks, em russo) promoveram ações diretas–algumas violentas–para desencadear uma revolução camponesa. Nenhuma trouxe maiores avanços à causa do socialismo camponês; sob certa medida foram até contraproducentes. A frustração resultante abriu espaço para a difusão da ideologia marxista. Os “social-democratas”, como os adeptos do marxismo se chamavam, acusavam a proposta narodnik de pobreza científica. Ela falava em reverter a sociedade feudal da Rússia para o coletivismo camponês de tempos passados–e longínquos. Para Marx, esse “comunismo primitivo” era inatingível: a sociedade avançaria cedo ou tarde para um capitalismo industrial; o feudalismo seria superado, não revertido. O capitalismo poderia até ser superado por um “comunismo avançado”, mas com uma revolução operária, não camponesa. Os social-democratas não negavam a boa-fé dos narodniks, mas apenas denunciavam uma falta de compreensão da História e uma excessiva romantização do campesinato.

narodnaya-volya

Integrantes da organização populista Narodnaya Volya: Anna Korba, Nikolay Rysakov, Olga Lyubatovich, Alexander Kwiatkowski, Stepan Kalturin, Sergei Kravchinsky, Nikolay Morozov, Gesya Gelfman, Timofei Mikhailov, Vera Figner, Mikhail Frolenko, Sophia Perovskaya. O nome do grupo inspirou o termo “narodnik”.

O marxismo viram a Lei de Emancipação do Camponês de 1861 com muito menos entusiasmo que ideólogos precursores do populismo (ou narodnichestvo) como Alexander Herzen. Promulgada pelo tsar russo Alexandre II, ela tinha, de fato, a grande virtude de abolir a servidão, pela qual o camponês estava pessoal e socialmente vinculado ao feudo onde vivia e de onde jamais poderia. Mas os social-democratas sabiam que a mobilidade da mão-de-obra era também uma demanda do capitalismo: a população precisava migrar às grandes cidades, onde o CAPITAL se concentravam, e produzir para a indústria. As oportunidades de emprego nos centros urbanos acabaria reduzindo e desagregando o campesinato; a revolução camponesa era simplesmente inviável. Os narodniks (que raramente se reivindicavam como tal, diga-se de passagem) nunca mais tiveram sossego dos social-democratas, nem mesmo (ou muito menos) daqueles que militaram no narodnichestvo. Fosse a Zemlya i Volya ou a Narodnaya Volya, fosse a bancada dos Trudoviks ou Partido dos Socialistas-Revolucionários, fosse a Cherniy Peredel ou o Partido Socialista Popular, todo grupo narodnik estava fadado a colidir com o marxismo.

Mas a colisão pode se dar de maneiras distintas. Depois da divisão do marxismo russo entre “mensheviks” e “bolsheviks“, os últimos se mostraram mais intransigentes com o narodnichestvo. Isso ficaria nítido a partir da Revolução Russa de (fevereiro de) 1917, da queda do tsarismo, e da instalação de um “Governo Provisório”, cuja direção logo caberia aos narodniks–os preferidos da imensa maioria camponesa. Os bolsheviks moveram intensa oposição ao Governo Provisório, que tinha um trudovik, Alexander Kerensky, no leme. Lênin, líder do bolshinstvo (e irmão de um antigo mártir da Narodnaya Volya) sempre fora um dos mais formidáveis críticos do nardonichestvo em toda a social-democracia russa. Mas ao longo de 1917 suas denúncias tipicamente sofisticadas deram lugar a uma virulência mais panfletária, porque ele–em contraste com os mensheviks–queria derrubar o Governo Provisório. Nessa mudança de tom o rótulo “populista” foi impactante: àquela altura a maior força narodnik (aliás, da esquerda russa) era o Partido dos Socialistas-Revolucionários, cujos integrantes os mensheviks e bolsheviks chamavam de “SRs” ou “Esers”. Afinal, faria sentido para um marxista chamá-los de “socialistas-revolucionários” se ele próprio era socialista E revolucionário? Mas os bolsheviks foram além nesse aspecto, porque foram usando epíteto “populista” com frequência cada vez maior, e com sentido cada vez mais pejorativo–para sempre enfatizar uma incompatibilidade marxista com os “socialistas-revolucionários”. Por um lado isso daria uma certa legitimidade, nos marcos do marxismo, para derrubá-los junto com os demais narodniks (como Kerensky). Por outro lado isso precipitou uma certa ampliação no sentido de “populista” e que, a partir da década de 1920, se prestaria a um utilitarismo vulgar e até difamatório de estigmatizar qualquer movimento popular carente de traços marxistas.

O CAMINHO SEM VOLTA DOS BOLSHEVIKS

Só que a pregação leninista contra o Governo Provisório não se limitou a críticas marxistas ou denúncias vorazes aos trudoviks e socialistas-revolucionários; atingiu também os mensheviks, ainda que boa parte do grupo (talvez a maior) estivesse na oposição. Só que essa oposição dos “Mensheviks de Esquerda” (bem como a dos ditos “Socialistas-Revolucionários de Esquerda” não se empenhava em pegar em armas contra Kerensky. Criticavam sua decisão de manter a Rússia na (Primeira) Grande Guerra mas apoiavam a autonomia nacional para os vários povos do antigo Império Russo. Depositavam as esperanças no pleito que Kerensky convocara para eleger uma Assembléia Constituinte. Os bolcheviques enxergavam nessa tática conjuntural uma falta de compromisso revolucionário de mencheviques e narodniques. Na verdade, tanto os mencheviques quanto os “Socialistas-Revolucionários de Esquerda” apoiaram o governo que os bolcheviques formaram após derrubar de Kerensky em outubro na Revolução de Outubro. O divisionismo, contudo, já estava semeado; seus mais venenosos frutos brotariam em pouco tempo.

Dois narodniks, destinos opostos: o trudovik Kerensky, chefe do Governo Provisório, foi derrubado pelos bolcheviques; Mark Natanson, da Esquerda do Partido dos Socialistas-Revolucionários, apoiou a Revolução de Outubro e aderiu ao partido de Lênin. Rompeu em 1919 com o fim do multipartidarismo.

A ruptura começou ainda na posse da Assembléia Constituinte. Lênin respeitara o calendário eleitoral do Governo Provisório, mas o eleitorado camponês garantiu uma vitória fantástica dos “Socialistas-Revolucionários de Direita”. Os bolcheviques (donos de uma bancada muito menor) fecharam a Assembléia no primeiro dia de funcionamento, prometendo um governo pelos soviets. Eram conselhos populares formados no ocaso do tsarismo, que apoiaram, majoritariamente a Revolução de Outubro. Isso não traduzia necessariamente em hegemonia bolchevique, e depois de Lênin assinar um tratado humilhante para tirar a Rússia da guerra, menos ainda. As esquerdas só não romperam de vez porque o “governo soviético” dos bolcheviques comandava as luta contra as forças antissocialistas–os “Brancos”. Houveram episódios de levantes socialistas contra os bolcheviques, mas hostilidade mesmo só veio quando a dita “Rússia Soviética” agrediu a soberania dos países nascidos com o fim do Império Russo.

Um caso particularmente emblemático foi a Invasão Soviética da República Democrática da Geórgia em 15 de fevereiro de 1921. Mesmo lembrando que o Governo Lênin tomou a maioria de suas medidas duras premido pela Guerra Civil, a ofensiva contra a Geórgia era impossível conciliar com a autodeterminação que os bolcheviques sempre defenderam. Para muitos georgianos, essa era apenas a mais recente agressão das inúmeras que sofreram sob tacape russo. O Exército Vermelho sempre se justificava, dizendo que incursões desse tipo eram necessárias para vencer Guerra Civil. Se esse argumento falhasse restava denunciar o caráter reacionário desses os governos. Não se comprovam alegações desse tipo com muita facilidade, mas no caso da República Democrática da Geórgia era impossível: os soviets locais haviam estabelecido o governo, os mencheviques o encabeçavam e uma Constituição socialista o regia. A narrativa conjurada em defesa dessa invasão demandou portanto uma narrativa inteiramente injusta, até cruel, com o menchevismo georgiano. Completamos 95 anos dessa farsa.

Dois mencheviques governaram a Geórgia: Noe Ramishvili (1918) e Noe Zhordania (1918-1921). Em 15 de fevereiro a Rússia Soviética invadiu o país, que só voltou a ser independente em 1991–mas sem socialismo

Triste mesmo foi esse tipo de tratamento virar hábito. No começo a grande preocupação de Lênin era dar credibilidade a seus atos; no caso da Invasão da Geórgia, era necessário dissociá-la do histórico expansionismo russo. Nada melhor, portanto, que confiar a um bolchevique georgiano a tarefa de apólogo. Ela recaiu sobre um burocrata ardiloso e malemolente chamado Iosip Vissarionovich Dzhugashvili–conhecido como Josef Stálin. Ele, que havia aprendido a jamais questionar Lênin (pelo menos em público) desde uma arenga com o líder inconteste que travou sua ascensão, aceitou a incumbência com entusiasmo e cumpriu-a magistralmente. Stálin, sempre diligente e prestimoso, assinou uma série de artigos contra a independência de seu povo, sempre com falaciosas tergiversações sobre a questão da nacionalidade. Suas mistificações renderam-lhe um livro, alavancaram a sua carreira, e comprovara sua insuperável vocação de justificar o injustificável. Fraudes dessa natureza ainda iriam virar regra.

A COMINTERN “DUPLIPENSOU” E O MUNDO FOI NA ONDA  

A Internacional Comunista (ou “Comintern”) que Lênin fundara em 1919 foi a grande retransmissora desse naipe de racionalização. Onde houvesse uma seção nacional da Comintern, as esquerdas não-bolcheviques–fossem populistas, mencheviques ou luxemburguistas–teriam de combater uma péssima. Lênin foi, com toda justiça um estadista talentoso, habilidoso, dotado de firmeza e foco, de disciplina e energia; adotou posturas draconianas na sincera convicção de que as conquistas revolucionárias estava em jogo. A tragédia se deu no modo como os seus estragos viraram virtudes nas justificativas ipso pos facto dos Partidos Comunistas. No “consenso fabricado” da Comintern a tradução de “narodnichestvo” foi banalizada e a invasão da Geórgia praticamente esquecida. E piorou quando Stálin tornou-se o líder soviético. Lênin podia forçar a barra, mas o burocrata georgiano espalhava epidemias.

É assustador pensar como várias narrativas e expressões propagadas pela Comintern ultrapassaram as fronteiras da organização. Termos pejorativos cunhados por Lênin, como “social-imperialistas” e “esquerdismo”, ou por ele tornados pejorativos, como “mencheviques” e “populismo”, viraram ofensas mesmo entre a esquerda não-comunista. Não é à toa que quase ninguém se diz menchevique; muito menos populista. Esta última ficou particularmente vaga, de modo que em seu balaio coube toda figura ou fenômeno com cara de popular, mas sem caráter comunista. Entendendo “popular” como “demagógico” (“popularesco”, porque não?) e “comunista” como “sincero” (ou “revolucionário”) o rótulo só podia ser ofensivo mesmo. A Direita assimilou essa noção com gosto, porque nem sempre a jogada de chamar os adversários de “comunistas” convence. “Populista” é a alternativa perfeita pela sensação de “popular-sem-ser-comunista”. A vulgarização do termo atravessou as barreiras ideológicas de forma quase comovente.

Mas dentro de “popular-sem-ser-comunista” cabe de tudo, direitas e esquerdas, autoritários e libertários, listrados e quadriculados. Alguns intelectuais, como Torquato Di Tella, até tentaram refinar a definição–às vezes de modo bem convincente–mas nenhum conseguiu desmerecer a permanente banalização do rótulo. Na verdade, poucos tentaram. Uns até ajudaram. (E alguns parecem ter enfiado o pé na jaca mais até que os papagaios da mídia). O rótulo, portanto, segue firme, por aí, satisfazendo caprichos de reducionistas de qualquer patota, fazendo troça com tudo que parece popular-sem-ser-comunista, ajudando permitindo que esquerdas estigmatizem adversários inegavelmente populares, e que direitas estigmatizem adversários inegavelmente não-comunistas,

Só que o Repara o Mundo, da esquerda criteriosa, não dá trégua a nenhuma ordem de mistificação política.

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