Holocausto: Lembrar é Necessário, Refletir é Urgente

O dia 27 de janeiro é o Dia Internacional de Lembrança do Holocausto. Ele marca a libertação, pela tropas do Exército Vermelho, em 1945, do campo de concentração e extermínio Auschwitz-Birkenau, nos estertores da Segunda Guerra Mundial.

Localizado no sul da Polônia, na área efetivamente anexada à Alemanha, Auschwitz era um complexo formado por um campo de concentração (o Auschwitz original), um campo de extermínio (Birkenau, ou “Auschwitz II”), um campo de trabalho escravo (Monowitz, ou “Auschwitz III”) da fábrica local da IG Farben, e 45 campos satélites. Era o maior e mais eficaz pólo de extermínio de judeus e outros grupos que o regime nazista considerava inaceitáveis. Cerca de 1,1 milhão de pessoas foram assassinadas em Auschwitz; judeus compunham 90% de suas vítimas. Morreram também mais de setenta mil poloneses, 21 mil Romani (o povo conhecido como “cigano”, leia-se, os Roma e Sinti); 15 mil prisioneiros de guerra sovéticos; outros 15 mil prisioneiros políticos de nacionalidades diversas, 152 testemunhas de Jeová, e um número indefinido de homossexuais.

Mapa de Auschwitz I, Auschwitz II-Birkenau, e Auschwitz III-Monowitz (reparem no tamanho da fábrica da I.G. Farben)

Auschwitz Birkenau Monowitz

Os campos de concentração e os campos de extermínio, a começar por Auschwitz e Birkenau, funcionavam com uma dinâmica altamente industrializada e com uma burocracia de eficiência espantosa. Foi o caso mais funcional de eliminação de vida e dignidade humanas. O progresso material e científico da civilização, destituído de quaisquer valores de respeito ao Outro, teve sua apoteose no Holocausto em geral e em Auschwitz em particular. A memória desse episódio ímpar de crueldade organizada precisa ser preservada não só pela singularidade de seu caráter, mas pela perenidade de vários de seus componentes. O mundo nunca viu nada igual combinação de elementos que vê diariamente.

 

Genocídio, Holocausto, Shoah e Porajmos

A expressão “Holocausto” vem do grego holókauston, que significa “incineração integral”. O termo original designava o sacrifício de animais, em fogo, para os deuses. os cronistas medievais Roger de Howden e Richard de Devizes se apropriam do termo para denominar o massacre de judeus que ocorreu em Londres em 1189, no começo do reinado de Ricardo I, Coração-de-Leão. O Genocídio de Armênios pelo Império Otomano, entre 1915 e 1918, foi descrito num livreto de 1922 chamado “O Holocausto”. Depois da Segunda Guerra Mundial o epíteto “Holocausto” passou a se referir especificamente ao genocídio de judeus pelo nazismo.

No decorrer do extermínio o povo judeu começamos a chamá-lo de “Shoah”, que significa “Calamidade” em hebraico. Aos poucos, o nome “Holocausto” foi adotado para traduzir “Shoah”; Julius Meltzer, jornalista do New York Times, usou a palavra “holocaust” num artigo de 23 de maio de 143 para falar do massacre de judeus pelos nazistas.

“Holocausto”, a rigor, se refere especificamente ao extermínio dos quase 6 milhões de judeus pelo programa de “Solução Final” dos nazistas. A atribuição se dava pelo fato de que os judeus fomos praticamente o único grupo contra o qual o III Reich praticou extermínio via câmaras de gás–denotando assim a dita “incineração integral”.

A otimização do extermínio que as câmaras de gás representavam também chegou a ser aplicado aos Romani. Os Romani, que atravessaram a História da Europa sob violenta perseguição, e até hoje são identificados por nomes pejorativos como “ciganos”, “gitanos”, “gypsies”, “gitans”, “tziganes”, dão ao genocídio que sofreram sob o III Reich de “Porajmos”, ou “Pharrajimos”. O significado literal de “porajmos” e “pharrajimos” é “esquartejamento” ou “destruição”. Também se usa “Samudaripen”, significando “assassinato em massa”.

O número de vítimas do Porajmos é ainda mais incerto do que do Shoah. Foram no mínimo  135.565 mortes; há quem calcule um extermínio total 285.650 Romani. Os registros ainda estão incompletos, mas em todo caso, os nazistas eliminaram mais de 25% da população Romani da Europa.

A memória do Porajmos possui características atípicas na cultura Roma. A História Roma é quase toda oral, e com todos os massacres e monstruosidades que sofreram sob domínio de tiranos, o Roma é uma cultura que, de forma bem simplificada, se dedica ao festivo, ao alegre, a ponto da palavra “boêmio”–outro nome pejorativo para os Romani–ser sinônimo de pessoa que se diverte, bebe, canta, dança, e aproveita a noite. O Porajmos é um caso recente de massacre que a História Roma vem buscado registrar; a bem dizer, os Roma e Sinti são um povo razoavelmente itinerante, capaz de se assentar em uma variedade de localidades mas sem muitos hábitos de centralização política e burocrática, e sem tanta manutenção de memorabília de chacinas. Mesmo assim, em oito de maio de 1956, o primeiro memorial rememorando o Porajmos foi erigido em Szczurowa, na Polônia, registrado o massacre de 93 Romani em 3 de agosto de 1943 pelas tropas nazistas que haviam ocupado o vilarejo.

foto tirada no Memorial de Szczurowa, homenageando vítimas do massacre

Memorial de Szczurowa

As outras vítimas do extermínio nazista ainda não deram nomes específicos para a destruição que viveram. Elas incluem quase dois milhões de poloneses, quase 500 mil sérvios, 200 mil deficientes, mas de 100 mil maçons, 25 mil eslovenos, entre cinco mil e 15 mil homossexuais, no mínimo 2500 Testemunhas de Jeová, afora dois ou três milhões de soldados da URSS.

Essa ausência de denominações particulares para cada um desses extermínios faz com que muita gente use a palavra “Holocausto” para incluir todos os massacres promovidos pelos nazistas–inclusive no Porajmos–e não apenas dos judeus.

Memória e Reflexão

Há uma perda progressiva de compreensão qualitativa sobre o Holocausto. Os judeus, sempre muito meticulosos em reconstituições históricas, nos empenhamos em estudar o assunto, continuamente. Para muitos não-judeus, essa dedicação é uma tentativa de amealhar autoridade moral. Alegam que os judeus se preocupam em demasia com esse crime quando tantos outros são cometidos diariamente. Esse raciocínio se ergue sobre a consagração do ridículo, pois é de se esperar que um povo, QUALQUER povo, dedique cuidado especial à sua História e conserve seus testemunhos. A consideração humana exige que haja compaixão desse povo com o sofrimento dos demais, mas se for em detrimento da rememoração de suas próprias tragédias, ela estará fadada ao artificialismo da supercompensação xenófila. Beiraria à demagogia.

O mundo assim perde a prerrogativa de entender o genocídio dos nazistas contra os judeus como uma tragédia humana, com as características do que a Humanidade pode perpetrar e sofrer, marcada por especificidades. Menopreza-se, despreza-se, ignora-se, refuta-se o Holocausto para negar aos judeus o registro de vítimas de um mortífero ódio singular. É uma forma de arrancar o sentido histórico do antissemitismo. Em detrimento do reconhecimento do antissemitismo como uma monstruosidade para a Humanidade aplicada a judeus, alega-se um dito sofrimento coletivo da espécie humana para recusar os componentes característicos da História de um povo.

E é ainda mais impossível esperar que essa luta contra a ênfase vá fazer dos judeus menos atentos ao fenômeno do Holocausto. Mantida essa tendência, de fato restarão apenas judeus a lamentar esse capítulo lúgubre da História humana e uma tragédia humana enquanto judaica será entendida como tão somente uma tragédia judaica.

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Infeliz Ano Novo: Cinquenta Anos de um Golpe Nefasto

Bokassa

Dia primeiro de janeiro, o começo de um ano novo para quase todo o mundo ocidento-globalizado.

Em meio a tantas festas e bebedeiras, as pessoas se enchem de alegria, esperança, entorpecentes e um espírito de renovação.

Pois então: o dia 1º de janeiro é uma data de tragédias.

Não para Cuba, que derrubou um ditador sanguinário nessa data em 1959.

Mas para o México, onde enclodiu uma sanguinária guerra civil, a “Guerra de los Cristeros” entre o governo anti-clerical de Plutarco Elías Calles e uma coalizão de organizações católicas, e que resultou em nada menos que 250 MIL MORTOS e uma quantidade igual de refugiados.

E para a Tailândia, que em 2009 testemunhou um incêndio que ceifou 66 vidas e causou 222 feridos numa boate em Bangkok, durante o show de uma banda com o nome agourento de “Burn”.

Também para o Paquistão, que no ano seguinte sofreu um pérfido atentado terrorista no vilarejo de Shah Hasan Khel, onde um crápula, aparentemente ligado ao Talibã, explodiu seu Mitsubishi Pajero com 270 quilos de explosivos num playground onde uma multidão assistia uma partida de vôlei, matando 105 das 400 pessoas presentes—crianças e adolescentes, sobretudo—ferindo uma outra centena, destruindo vinte casas e o telhado da mesquita local.

E também para o Egito, também por conta de um outro atentado terrorista, dessa vez contra uma igreja cristã copta em Alexandria, onde, em plena celebração do Ano Novo de 2011, um explosivo matou 23, feriu 97, e criou um mistério acerca de sua autoria que até hoje não foi devidamente resolvido, mas lançou suspeitas sobre uma organização extremista chamada “Exército do Islam” e sobre o próprio governo anti-copta de Hosni Mubarak.

E igualmente para a Costa do Marfim, que há três anos encerrou o revéillon da cidade de Abidjan, no Estádio Felix Houphouët-Boigny com um desastre logístico em que uma correria de multidões apressadas e em pânico resultou em 61 pessoas pisoteadas até a morte, noves fora duzentas que foram feridas.

Mas foi há cinquenta anos que aconteceu o Ano Novo mais dramático na História recente da África—aquele continente que poucos dos nossos formadores de opinião se dão ao trabalho de estudar, quanto menos comentar, discutir, debater—ou mesmo refletir a respeito. Continuar lendo